domingo, 19 de junho de 2016

Exercício Cláudia 2 - Bruna

Bruna – OS LOBOS DO MAR E A ÁGUIA DA ILHA
Prólogo ─ O roubo do pingente de ouro
1665
Olhava-os com o semblante agonizado. Mal tinham acabado de nascer e já se encontravam em perigo.
─ Eu os amo tanto!
Ela soluçava enquanto sentia o navio estremecer com o choque de balas de canhão revidando. Apertava forte os dois filhos contra o peito. Como se as pessoas estivessem longe, podia ouvir homens correndo e gritando de dor. Sua audição estava prejudicada devido ao imenso barulho naquela noite. Nesse momento, um homem da corte bateu à porta e entrou falando em tom de desespero.
─ Vossa majestade, este lugar não é mais seguro. Queira acompanhar-me.
─ Como o capitão não viu tais piratas chegando, diga-me? ─ A mulher falava com um misto de raiva e indignação.
─ Majestade… ─ O súdito lhe respondeu, demonstrando que não só igualmente desconhecia a resposta de tal pergunta como estava preocupado em permanecer ali por mais tempo.
─ Onde está o rei?
Ouviu-se o som de mais uma explosão. Um segundo se passou enquanto a rainha pensava se tinha partido do inimigo ou deles. Não demorou muito para que descobrisse. A bala quente avançou em algum lugar perto dali, arrastando a porta, e algumas das mobílias.
Instintivamente, ela havia se ajoelhado quando ouviu o impacto e virado suas costas para o ponto da explosão. Quando a rainha abriu os olhos, o seu primeiro feito foi verificar se tudo estava bem com as crianças. Elas berravam, mas a rainha apenas podia ver suas bocas abrirem e as lágrimas escorrerem. Nenhum som, só um apito agudo. E isso a deixou ainda mais desesperada. Depois, ela tentou levantar-se. Suas pernas estavam bambas, mas, mesmo assim, conseguiu virar-se e observar que o cômodo estava chamuscado e pegando fogo em várias partes.
O súdito havia sumido. Havia mesmo passado a hora de irem embora. Ela começou a tentar andar rápido para sair da sala de navegação e chegar ao convés principal, onde acreditava estar seu marido. Porém, olhou para baixo e percebeu o quanto suas roupas lhe pesavam. O vestido era imensamente grande, com volumes nos ombros e mangas, de forma que dificultava até mesmo a possibilidade de segurar os seus filhos. O primeiro item que ela retirou foram os sapatos de salto. Depois, ela puxou as saias e retirou os arames que a levantavam, o chamado farthingale. Puxando uma espécie de pijama do guarda roupa ─ que era volumoso, porém imensamente mais leve ─ a rainha sentiu-se melhor. O cabelo repartido ao meio e com cachos que desciam até os ombros estava totalmente embaraçado e banhado em suor.
Ela viu-se rapidamente no espelho. Esperava que, daquele modo, ninguém a reconhecesse. Seria extremamente vergonhoso. Caso saísse viva daquele navio, talvez teria de se entregar a coroa no futuro por aparecer em público trajando tais vestes. Porém, não era o momento de pensar nisso. Agora, ela percebia que estava muito mais ágil e agarrou novamente ambos os filhos, um ocupando cada braço. Ela caminhou para fora e desceu as escadas até a popa enquanto via várias pessoas correndo, poças de sangue, entranhas de gente, além de um odor fétido de intestino solto.
Onde estava o seu marido? Ela sentiu o chão tremer enquanto caminhava. Mais um canhão havia disparado contra o seu navio, mas, felizmente, o tiro caiu longe desta vez. Ela sabia que um pequeno barco provavelmente estaria no convés principal e era para lá que caminhava naquele momento. Teve que passar por várias pessoas moribundas. Todas gritavam palavras que ela já começava a ouvir: eram pedidos de ajuda.
O resto dos tripulantes os ignorava, assim como a ela. Todos estavam mais preocupados em salvar as próprias vidas. Assim, a rainha percebeu o quão tolo seria o seu pensamento de que alguém a reconheceria ou iria lembrar-se das roupas que ela usava. Porém, algo ainda mais importante se mostrou tolo; dificilmente ela ou alguém sobreviveria àquele ataque para poder tirar-lhe a honra depois.
Enquanto vagava pelo convés principal e gritava o nome do rei, um outro membro da corte a reconheceu.
─ Vossa Majestade! ─ Ele brandiu o mais alto que podia e naquele momento ela notou que não era a única com vestes inapropriadas. O homem estava coberto de fezes e vísceras, sendo quase impossível distinguir a roupa que estava logo embaixo. ─ É tão gratificante revê-la! Mas não há tempo, tem que embarcar agora mesmo!
─ Onde está o rei? ─ Ela gritou, surpreendendo-se com o próprio agudo da voz.
─ Ninguém por aqui o viu. ─ O homem respondeu com pesar.
─ Eu preciso achá-lo! ─ A rainha afirmou e estava prestes a dar meia volta quando o homem a segurou pelo pulso.
─ Majestade, tem que embarcar agora mesmo! O navio irá afundar em pouco tempo! Aceite que o rei pode estar morto e salve a vida de seus filhos! ─ O homem chamou a atenção da mulher, também irreconhecível sem o vestido, a peruca e a maquiagem. Vendo que ela nada respondia, mas virava-se novamente para ele, o rapaz tornou a falar. ─ Há duas terras que poderemos buscar socorro. Uma é aquela que a Majestade avista e a outra está um pouco mais longe. A mais perto é desconhecida, porém rápido de chegar. A segunda é longe e os perigos são grandes embora exista amizade lá. Entende o que quero dizer?
─ Não. ─ A rainha sibilou.
─ Estamos dividindo. É o mais seguro…
─ O senhor sugere que eu me separe de um de meus filhos? ─ A rainha respondeu atônita.
─ As chances de sobrevivência aumentam… O ideal é que os dois sobrevivam, mas entenda que é necessário garantir a sobrevivência dos herdeiros. E, além do mais, o outro será resguardado em plena segurança. Garanto que cuidarei daquele que não estiver com a Majestade.
─ Como escolher? ─ Ela olhava para os dois meninos. Porém, os olhos saltavam para Julius. Na noite anterior, ele havia tido febre e sempre lhe parecera mais fraco. Naquele momento, por exemplo, Julius gritava muito e estava quente, enquanto o irmão apenas observava o mundo com olhos arregalados. ─ Você jura que irá protegê-lo mesmo que isso lhe custe a vida? ─ Ela perguntou, apontando o irmão que seria levado.
─ Juro solenemente, Majestade.
           A mulher ergueu o filho do qual ela seria separada e o beijou na testa.
─ É a decisão mais difícil que fiz em toda a minha vida. Eu o amo muito! Por favor, fique vivo, Sebastião. Iremos nos encontrar novamente, sei disso!
As lágrimas brotavam em seu rosto. O homem da corte pegou o menino e entrou em um outro barco pequeno, que começou a ser içado para o mar. Quando este pousou no mar, a mulher gritou como se isso fosse manter o filho a salvo. Um homem a levou com delicadeza para outra pequena embarcação e ela sentou-se segurando Julius firmemente. A rainha achou que morreria naquela hora, tamanha era a dor que seu coração sentia de deixar o outro filho nas mãos de outras pessoas.
Já do mar, ela pôde ver que várias partes do navio pegavam fogo. Seu marido teria conseguido outro barco? Talvez ele apenas estivesse no navio ainda, procurando o convés principal… De onde ela estava, também ainda conseguia distinguir a luz fraca do outro barco que levava o seu filho. Porém, eles navegavam para sentidos contrários. Por diversas vezes, a rainha pensou em pular na água e se juntar a Sebastião. Mas a sua decisão já estava feita.
Quanto mais o barco se afastava do outro, mais a rainha orava. Enquanto isso, ela pegava panos e os molhava no mar, para fazer compressas na testa do filho com febre. Em dado momento, quando estava muito longe do navio, a rainha viu um clarão enorme e sentiu o barco subir muito e descer.
O navio havia explodido e naufragado. Não havia mais como evitar a verdade. Caso o seu marido estivesse vivo, ele teria ido para os pequenos barcos. Caso ele estivesse preso em algum lugar do navio certamente havia morrido. A rainha chorou copiosamente diante dos fatos. Há muito a luz fraca do barco em que estava o seu outro filho havia sumido.
Estava muito quente e ela não sabia a quanto tempo estava no mar junto com as outras pessoas do pequeno barco. Um homem se orientava com uma bússola e um mapa, garantindo que os levaria a salvo para as terras amigas. Todos ali estavam com ares de assombrados e o barco fedia muito porque a maioria havia escorregado nas entranhas e fezes espalhadas pelo chão do navio que havia explodido. A rainha, mesmo sem fome, certificou-se de que havia alimentos para alguns dias.
Vencida pelo cansaço, ela se permitiu fechar os olhos um pouco. A febre de seu menino parecia ter aliviado minimamente. Ela dormiu enquanto rezava por ele e o irmão. Acordou com um chamado, sem saber se havia passado algumas horas, minutos ou dias. Ventava muito e ela percebeu que todos olhavam para a água. Então, curvou-se também e percebeu, na luz fraca da vela, que bolhas de ar subiam do mar.
─ Majestade, mantenha-se afastada. ─ O homem com a bússola e o mapa pediu. Ela assentiu, pressentindo algo ruim e voltou a rezar. Porém, percebeu que naquele momento ele não segurava os objetos. A bússola estava perto dela e ao observá-la, a rainha assustou-se. Os ponteiros giravam, sem marcarem a exata direção. Ela estava prestes a perguntar o que era aquilo quando uma mulher questionou sobre as bolhas de ar.
─ Nunca vi nada parecido. ─ O homem dos mapas respondeu trêmulo.
           Em seguida, todos sentiram que o barco começava a se mexer e as velas eram jogadas para os lados em que o vento soprava, sem que fosse possível segurá-las. A rainha notou que a pequena embarcação estava fazendo uma curva. Então, rapidamente ela começou a orar e pedir em voz alta aos céus.
─ Deus, o Senhor há de entender a dor de uma mãe ao perder o filho! Não permita isso! Se quiser me levar e esta for a minha hora, irei de bom grado encontrar o meu marido. Mas eu lhe imploro, faça com que meus dois filhos fiquem vivos! Eu lhe prometo eles deixarão bons frutos a esta terra, mas permita que vivam para isso! ─ A rainha chorava. ─ Proteja meu Sebastião, que aqui não está, e Julius, que se encontra em meus braços. Ele é uma inocente criança diante das casualidades que acontecem em meio à ira da natureza. Eu lhe imploro! Sei que há amor em seu coração, e o Senhor não pode ver esta cena sem apiedar-se desta mãe!
           Quanto mais a rainha falava, mais o redemoinho gigante tragava o barco, fazendo-o girar. A qualquer hora, o barco viraria e a majestade agarrou-se em um remo enquanto sentia que desequilibrava.
─ Há de existir, Deus. Há de salvar o meu filho! ─ A rainha gritou e o barco virou-se, juntamente com o grito de todos enquanto caiam na água,
           A mulher segurava-se firmemente no seu filho e sabia que a água já começava a entrar nele também, conforme eles eram arrastados em movimentos circulares. A rainha tentou nadar com o remo, que a levava um pouco para cima. Em águas calmas teria conseguido submergir, mas, naquelas condições, era praticamente impossível. Sentindo que iria sufocar, ela começou a gritar para Deus também debaixo da água. O som abafado só poderia ser escutado por ela mesma.
─ Julius! Salve!
           Uma dor horrível lhe preencheu o peito e tudo o que a rainha desejava era que o filho não estivesse sentindo a mesma dor. Então, uma forte pontada na cabeça a acometeu e ela viu os dois filhos já crescidos se encontrando. Tentando resistir à inconsciência, procurou Julius, mas ele havia sumido de seus braços. A rainha não podia acreditar que o tinha soltado. A dor física se misturava com a emocional de uma maneira surreal. A morte doía. Doía muito, mas parecia que uma hora ela parava de doer… E, então, a morte era apenas momentos felizes do passado, que se perdiam na eternidade da lembrança.
Apesar de tudo, o dia não se intimida com a morte. Algumas horas depois o sol nasceu, iluminando um pequeno barco preso entre a areia e a borda do mar. Uma mulher que por ali passava, viu um homem dentro e aproximou-se. Apenas depois viu o tiro no peito. Com certeza tinham acertado nele. Maria não podia entender como os homens de sua ilha podiam ser tão terríveis e cruéis de vez em quando. O que custava deixar um estrangeiro vivo dentro de seu barco em fuga?
Tentando afastar esses pensamentos, Maria pensou no que realmente importava. Ali havia também um embrulho e ela alegrou-se ao pensar que seus Deuses tinham lhe deixado um presente. O que poderia estar lá? Talvez ouro, do naufrágio da noite anterior? Joias, diamantes? Ela esgueirou suas finas mãos e puxou uma das pontas do pano, então quase caiu para trás. Um menino parecia morto. Maria o pegou nos braços, apenas para constatar que ele dormia calma e silenciosamente. Quando viu algo reluzindo em seu pescoço, sorriu.
─ Sebastião, você é mesmo um pequeno tesouro! ─ Ela riu baixinho enquanto tirava a corrente do menino e a guardava no bolso.


Capítulo 01 ─ Quando não nadar para cima
1704
Uma lenda antiga dizia que, em noite sem lua, quando a escuridão cai, a linha do horizonte se quebra no encontro do céu com o mar. Deste modo, mergulhar no oceano a essa hora é também cair dentro do ar. Assim, se alguém ousar navegar nessas circunstâncias é possível que o barco experimente uma sensação de ficar de ponta cabeça, com a gravidade invertida, sem saber se está na terra firme ou no céu, e, pior, sem saber como voltar para casa.
Por esse motivo, em noite sem lua, os lobos do mar eram estritamente proibidos de navegar. Afinal, quando o caminho para a morte e a vida eterna ficam mais curtos, o melhor é não se arriscar a nadar para cima.
Mas um homem em específico não se importava com isso. Na verdade, ele gostava de sair de casa naqueles momentos onde tinha certeza de que não cruzaria com ninguém nas ruas e, portanto, poderia ficar em paz. Naquela noite não era diferente, Péricles pegou uma tocha e caminhou até a areia, onde escolheu uma rocha e sentou-se em cima dela enquanto admirava o quebrar do mar.
Realmente, não ver absolutamente nada do que estava adiante das rochas era um pouco agonizante. Mesmo sendo impossível provar se a linha do horizonte estava quebrada ou não, o homem, de aproximadamente quarenta anos, teimava em dizer que eram meras histórias contadas pelos habitantes. Pobres homens, presos em suas convicções ilusórias! Extremamente religiosos, venerando entidades que sequer tinham visto, submetendo as suas leis com base nas regras “divinas”. E tudo para matarem, a sangue frio, estrangeiros vindos de outras terras.
Péricles sabia como os estrangeiros os definiam: piratas bárbaros. Porém, na ilha Caligo, que significa neblina em latim, tais homens chamavam a si mesmos de os “lobos do mar” e entendiam que saquear e matar faziam parte da sobrevivência deles próprios. Os lobos levavam artigos que poderiam ser vendidos para as pessoas das ilhas. Desse modo, garantiam a subsistência da família. Quanto mais feitos, roubos e navegações realizadas, mais um lobo subiria na hierarquia, e mais itens valiosos roubava, ficando cada vez mais rico.
Já a morte dos estrangeiros era justificada primeiramente porque se alguém escapasse e desse a localização da ilha a outros lugares, provavelmente frotas inteiras iriam até lá. Além do mais, não saber onde a ilha estava era um fato imprescindível para o sucesso dos saqueamentos, já que os inimigos eram pegos de surpresa.
Outro fator que ajudava era a natureza. Localizada no hoje chamado Triângulo das Bermudas, muitos fenômenos climáticos rondavam a ilha de forma que ajudavam a ocultá-la. Um fator era a geografia do local. A ilha Caligo era rodeada de altos rochedos que saíam do mar e subiam por vários metros em direção ao céu. Muitas vezes, essas montanhas de pedras eram capazes de esconder embarcações inteiras. Além do mais, quem não conhecesse bem a região poderia facilmente ficar preso entre essas montanhas ou bater em algum rochedo e ter a embarcação prejudicada.
Também assomava-se o fato do local possuir correntes marítimas e rios dentro do mar, que a circundava. Os lobos do mar a conheciam bem, e sabiam onde entrar para serem arrastados mais velozmente até o mar e por onde voltar para chegar rapidamente à terra firme. Enquanto isso, o navio de inimigos era arrastado a esmo pelas marés.
Como se não bastassem todos esses aspectos contribuintes, havia também a característica principal que dava nome a ilha. Neblina. Presente ao longo de vários dias, por horas que se estendiam. Os lobos acreditavam que ela era um fenômeno dos Deuses, e a cultuavam pedindo que a neblina protegesse a ilha. Porém, Péricles não estava certo de que tal nevoeiro vinha do plano espiritual. Acostumado a roubar livros de navios, o homem os havia colecionado ao longo dos anos e criado uma biblioteca particular, a única da ilha.
Nenhum habitante entendia porque o velho arriscava a própria vida para levar o máximo de exemplares possíveis. Para os lobos, livros eram de uma inutilidade tremenda. Mas, para Péricles, eles eram a sua vida. Foi com eles que aprendeu diversas línguas, entendeu o que era a ciência e quais eram as crenças de outros povos. Com eles, o velho marujo compreendeu que a névoa nada mais é do que uma nuvem, formada pelas minúsculas gotículas de água que evaporavam do oceano. Pelo que entendia, a nebulosidade era comum em locais frios, úmidos e elevados. Na ilha, apesar de fazer calor à tarde, as manhãs e noites eram extremamente frias. A umidade não era preciso explicar, mas a elevação permanecia um mistério. Lendas diziam que antigamente, muitos séculos atrás, a ilha foi o cume de uma montanha e a região onde estava o mar era um enorme planalto onde diversos habitantes da chamada Atlântida viviam.
           Ele conhecia também as lendas, pois, sendo um dos poucos que sabiam ler e escrever, se encarregava de registrá-las em livros. Pensava assim estar guardando a memória de seu povo. Algumas vezes, os lobos do mar tinham de dar o braço a torcer e pedir o seu auxílio, como quando precisavam pesquisar livros sobre lendas, leis ou como funcionavam embarcações de vários outros lugares do mundo. Péricles também era chamado para traduzir o que estrangeiros capturados falavam. Outras vezes, precisava indicar como criar um novo apetrecho ou arma, que seriam eficientes nos combates. Também dava dicas sobre os mares, como em qual ponto da ilha a maré levava para o alto mar mais rapidamente.
           O homem de espessas barbas pensava em sua importância em casos tão restritos e imaginava que era por causa disso que ainda não havia sido morto pelos habitantes extremamente religiosos, que não aceitavam as suas explicações. Quantas vezes governantes, chefes dos lobos do mar, não o procuravam em sigilo para entenderem o que realmente havia acontecido em determinada situação? Depois disso, inventavam um motivo religioso qualquer e conseguiam solucionar o problema, sem jamais terem citado que Péricles os ajudou. Assim, “inspirações divinas” eram muito corriqueiras.
           Às vezes, o homem pensava que era melhor ser ignorante. Sentado na rocha, ele olhava para o mar enquanto havia pendurado a sua tocha em uma espécie de apoiador. O mar estava revolto naquele dia, batendo nas pedras como se tivesse grande ódio delas. Quando ignorava a linha do horizonte, olhava para toda aquela expressão da natureza e sentia-se bem. Gostava daquela manifestação, pois se reconhecia nela.
           Já estava levantando para ir embora quando viu um movimento no oceano, próximo de onde estava a tocha em cima da pedra. Viu também um vulto nas águas e achou que fosse um peixe grande. Pensou em se mover para o agarrar com as mãos. Porém, há muito que havia deixado de ser um jovem lobo do mar.
           Só então lhe ocorreu uma outra figura, que, nas histórias, era facilmente confundida com um peixe. Sentiu um frio lhe percorrer a espinha, já havia escrito muitas vezes sobre aquele ser que preferia nadar no céu em noite sem lua. Mesmo sabendo que eram apenas lendas, os pêlos de seu braço se arrepiaram.
─ Você é um homem racional. ─ Péricles disse a si mesmo enquanto passava a palma da mão nos braços para abaixar os pêlos.
Porém, as lembranças dos dias em que ouviu relatos e os escreveu nos livros (uma série denominada por ele mesmo como “Contos de seres mágicos e outros mistérios da ilha de Caligo”) voltavam. Os narradores eram sempre alguém, que conheciam alguém, que havia visto ou tido contato e voltara vivo.
Um caso de uma senhora em particular lhe chamava a atenção. Ela havia lhe contado: “É difícil saber… Meu marido ficou louco. Quando procurei mais gente que havia se encontrado com elas, disseram isso mesmo. Os poucos sobreviventes ou ficaram sem raciocínio e traumatizados demais para falar ou morreram horas depois de terem voltado para a casa e pouco conseguiram relatar. A regra parece ser a mesma para elas: nunca deixar um humano vivo ou com sua consciência. Nunca ter compaixão. Alguns dizem que elas não são capazes de ter sentimentos”.
           Atentamente, Péricles andou até onde estavam as ondulações no oceano. Foi então que ouviu uma voz lhe falar, sem saber se ela vinha da terra, água ou ar. Era precisa, leve, ardente e calma, como os próprios quatro elementos conhecidos. No capítulo sobre elas, não havia a descrição do som, pois tal tipo de criatura jamais falou a alguém.
O ser lhe perguntou se ele era um bom homem. Péricles tinha vontade de fugir e pensou em fazê-lo, mas as suas pernas estavam muito moles para que conseguisse correr sem cair de cara na areia. Quando tentou levantá-las e movê-las um pouco, lhe pareceu que elas pesavam 10 Kg cada. Ele respirou fundo, lembrando-se que a conversa poderia lhe salvar a vida. Era preciso manter a razão sã.
─ Creio que não sou bom, pois as pessoas daqui odeiam-me. ─ Ele respondeu com a voz mais firme que conseguia apresentar. Mas até mesmo suas cordas vocais tremiam mais do que o normal.
─ Isto é um ótimo começo. Qual a sua flor preferida?
           Péricles arregalou os olhos. Por que um demônio dos mares lhe perguntava aquilo?
─ Onde você… ─ Ele engoliu em seco e começou de novo a frase. ─ Quem está falando comigo?
           De repente, ele viu um ser horrendo aparecer da cabeça ao peito na beira da praia. A calda provavelmente estava embaixo da água e se estendia pela beirada apontando para o imenso mar. Era uma fêmea relativamente pequena, mas nem por isso lhe dava menos medo. Ela tinha escamas por todo o corpo, brânquias, e um rosto que se assemelharia ao de um ser humano, não fosse as conchas coladas, o musgo, escamas, e o olho gigante e amarelo. Ele não precisava ver o resto do corpo para saber o que lhe esperava.
"Acho que ninguém sobreviveu sem sequelas ao ataque impiedoso de uma jakarta", a velha mulher havia lhe contado anos atrás. “Primeiro, o coração é fincado pela calda, que se abre em dois enormes pontiagudos, mais resistentes do que o ferro”, a habitante havia dito.
─ Jakarta… ─ Péricles não esperou o ser responder. Fechou os olhos. Era a sua hora de morrer.
─ Cale-se! ─ Ela falou um pouco angustiada. ─ Seu medo me deixa irritada.
─ O que deseja comigo? ─ Péricles sentiu as pernas bambearem e ele tombou com o traseiro na areia. Tentou, em seguida, se arrastar para longe do mar.
─ Tenho um pedido a fazer. Abra os olhos. ─ A jakarta falou, dessa vez, com a voz esganiçada. Péricles nunca havia lido nada parecido nos livros.
─ Não abrirei! ─ Péricles continuava tentando sair dali, mas o seu corpo permanecia muito pesado. Nenhum relato havia lhe contado que isso pudesse acontecer. Porém, ele achava que a jakarta o pudesse hipnotizar com o olhar.
─ Abra agora! ─ O ser gritou. Ao mesmo tempo, uma onda maior do mar o alcançou, como se fosse uma resposta da fúria do ser marinho.
A água entrou na boca de Péricles, que começou a tossir. Ele não era capaz de levantar-se. A Jakarta riu-se. E começou a cantar uma velha canção de marinheiros. A princípio, sua voz era terrível e Péricles sentia vontade de morrer para não mais ter de ouvir aquele som. Depois, o incômodo passou e o som foi ficando suave como uma nuvem. A sensação de perigo foi passando, e ele foi se esquecendo que estava na beira do mar. Viu-se em um baile.
Abriu os olhos enquanto ria, imerso na lembrança mais feliz de sua vida. Era assim que a jakartas começavam, segundo os relatos. Mas ele já não podia raciocinar. Estava dançando com sua antiga amada. Passava entre todos conversando com ela, e ria-se muito do que ela dizia. Como a amava! Puxou-a e beijou-a. Sentiu imensa vontade de contar que a amava, antes que o peito explodisse.
─ Meu coração é todo seu!
           Péricles a beijou novamente e, então, voltou a abrir os olhos após terminado o beijo. Mas os abriu também para a realidade. Então, sentiu, uma dor imensa nos ouvidos e na cabeça. Olhou-a. A jakarta sorria.
─ É uma bela lembrança.
           Ele conseguiu distinguir ela dizer entre seus ganidos, agudos e graves. Péricles sentia que ia desmaiar devido a pressão na cabeça. Via os fios saírem dos dedos enormes dela e indo parar em suas orelhas. Ele sabia que os fios estavam ligados na sua mente e que qualquer movimento o levaria diretamente para a morte.
─ Por favor, solte-me! Dói muito. ─ Ele disse com muita dificuldade, tanto que sequer ouviu a própria voz. Sentiu as lágrimas escorrerem. Antes a morte do que aquela dor.
Em um gesto surpreendente, a jakarta o soltou ─ o que também lhe doeu de um jeito quase insuportável. Péricles sentiu que estava prestes a desmaiar, ainda não conseguia mover-se. Quando ela tirou seus tentáculos afiados e mais finos do que um alfinete, ele caiu na areia. Sequer havia percebido que ainda estava na beira da praia.
Ele tateava o lugar e pensava em sua lembrança. Seria uma lembrança? Péricles já não tinha mais certeza. As jakartas podem tanto resgatar fatos reais quanto criar novas verdades. Se feito com cuidado, elas podem oferecer novas memórias, mudar opiniões enraizadas e até mesmo provocar um desejo, como o da raiva extrema ou amor. Saber que uma ilusão de jakarta foi criada é quase tão difícil quanto saber que se está sonhando. Identificar exige treino, mas não há como treinar com a morte.
─ Se está memória for falsa, eu prefiro morrer!
           A jakarta ainda o olhava sem expressão.
─ Foi uma memória real, a usei para lhe atrair. Preciso lhe entregar…
           Então, ela abriu quatro de seus outros braços e de lá de dentro, como em uma miragem, retirou um embrulho grande. Péricles sequer havia notado que ela segurava algo. Com o seu quinto e sexto braço, ela lhe estendeu o “pacote” imóvel. Péricles a olhava atordoado e sem entender.
─ Pegue.
           Ele assentiu e estendeu os braços, esperando que eles estivessem imensamente pesados. Porém, o peso de seus membros havia passado e ele conseguiu segurar o embrulho, não sem dificuldade, pois ele era grande e deveria ter uns 30 Kg. Ao sentir o peso, apoiou o embrulho na areia e puxou uma das pontas do tecido. Nesse momento, quase caiu novamente na areia e olhou desesperadamente para a jakarta.
─ Ela salvou minha vida. ─ A jakarta olhava para a garota como Péricles jamais imaginaria que um monstro poderia olhar.
Mil perguntas vinham na mente do marinheiro. Sua respiração estava ofegante e o coração parecia estar dentro da cabeça. Cuidadosamente, a jakarta tirou um colar e o levou até o pescoço da menina. Assustado, Péricles a afastou com os braços. Porém, a jakarta o ignorou e colocou o colar nas finas unhas, estendendo-as até a criança. Então, a fina linha resistente que saia de seus dedos formou um círculo, dando a volta no pescoço da menina e prendendo o fio do colar.


Péricles o encarou. O pingente era uma concha furada no meio, por onde o fio do colar passava, sendo uma espécie de corda. Porém, os olhos do velho marujo voltaram a se arregalar quando, embaixo do novo colar, ele viu uma linha brilhante e um pingente igualmente luminoso e dourado. Ouro? Ele estava prestes a perguntar o significado de tudo aquilo para a Jakarta, mas, quando levantou os olhos, o mar a sua frente estava calmo e com ondas suaves. O ser havia sumido.

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