sexta-feira, 10 de junho de 2016

Exercício Cláudia - O CÉU DE CLARICE

Prólogo: Indevidas apresentações
Dizem que as íris são como a nossa identidade. Nenhuma neste mundo é igual a outra porque elas são como a própria alma. Falam também que se repararmos no olhar reconheceremos o outro depois de muito tempo, afinal cada um tem a sua forma particular de ver o mundo.
Era uma noite chuvosa para mais um dia de verão no Norte da Itália em 1898. Ninguém mais se encontrava na rua de terra quando os olhos dela varreram as casas, que estavam completamente escuras. Apenas quatro residências guardavam a luz fraca de velas. Eram pessoas simples, morando em locais de um ou dois andares (sendo o segundo sempre maior em altura do que o primeiro). A rua era levemente íngreme, nascida em terreno montanhoso. Desbocava no centro, onde também ficava uma igreja. Toda cidadezinha tinha seu altar religioso e essa parecia ser a lei para as décadas seguintes. Era uma rua pequena, ao mesmo tempo tão grande.
        Muitas histórias vieram ao mundo no mês de fevereiro, mas nenhuma se desenvolveu de igual forma. Talvez fosse o destino, mas poderia muito bem não o ser. Parecia que o mundo estava preparando algo a mais; algo aberto para o que a mente não era capaz de ver.
Quem poderia querer ajudar uma criança sem pai? Há de se imaginar que a população não reconhecia uma menina que não iria aprender as boas maneiras de se tratar um homem. Igualmente, repudiaria um garoto que não saberia como ser esse homem. E futuramente quem se casaria com uma moça ou moço que não tinha uma família descente? Mais precisamente, quem desejava uma pobre mulher com um recém-nascido andando pelas ruas e pedindo ajuda? Isso não. Os moradores deslocam a mão fazendo o sinal da cruz.
Era melhor para a sorte das duas deixar o bebê morrer e, talvez, com mais sorte, a mãe desfaleceria também. Sim, era de fato uma solução melhor do que ajudar, porque o mundo sempre teve medo “do que as pessoas pensariam se”. Era melhor pôr os filhos para dormir enquanto tampavam os ouvidos.
Porém, por entre as pequenas pedras que rolavam com o movimento dos passos e enquanto se ouvia gritos espaçosos, que ressoavam pelo vilarejo e misturavam-se com a chuva calma que caia, era possível ver um vulto de uma mulher. Quando ela andava, fazia um tilintar de metais batendo, sendo o único detalhe que se poderia distinguir no escuro, em meio aos primeiros minutos do amanhecer. Ninguém via que ela trazia uma veste simples e amarela, que seus olhos pretos estavam tranquilizados. Não tinha nada a perder a não ser a bondade que carregava em si e que a fazia seguir em frente.
        Ela foi em direção à casa da Verenime, ao local dos gritos. E, quando, sem sono, uma das idosas do lugar a viu entrando, tratou de espalhar para a vizinhança na primeira hora do dia. Todos se perguntavam se ali estivera um membro da família que apareceu na última hora. O peso na consciência chegava. Pensavam que se havia algum familiar é porque não deveria ser pessoa tão má. Mesmo assim, não agiam. Às vezes é fundamental alguém que pensa diferente para ver e tomar decisões que mudam a realmente algo.
A mulher tinha cabelos negros que desciam até a cintura e pele branca como uma seda. Seus passos eram como os de um gato: centrados, silenciosos e confiantes. Não bateu na porta, simplesmente entrou. Parecia saber o exato caminho do quintal para o quarto. Os gritos de dor ainda continuavam, cada vez mais intensos. Imagine uma mulher tentando dar à luz sem ajuda.
Quando a mãe olhou para a mulher entrando, entendeu que se tratava de alguém que queria ajudar. São dessas simples coisas que se diz com um olhar. A mãe suava muito, estava com um vestido simples e rosa. Assim, enquanto a “parteira” inesperada torcia o pano e tateava a sua barriga, a outra não ousou perguntar quem era ela. Também não se atreveu a balbuciar o principal questionamento que rondava sua mente:
─ Por que ela está fazendo isso por mim?
Ficou o tempo todo calada. Temia que, caso perguntasse, a parteira fosse embora. E foi com a ajuda dessa mulher que a pequena menina de olhos azuis e pele branca nasceu. Seus olhos não tinham como esconder o que aquele pequeno projeto de história teria pela frente.
A mulher limpou a criança, cortou seu cordão e a entregou para a mãe. Limpou o quarto e lançou lençóis novos para a cama do lado, garantiu que tudo estava perfeito e foi embora sem dizer uma palavra. A mãe a olhava com gratidão e sorria. Mas, da parte da parteira, o que se pôde perceber foi um sorriso tímido e íris que estranhamente ocupavam quase todo o globo ocular. Essa pessoa se assemelhava muito, tanto nos trajes como no jeito, a uma cigana.
Foi nos cabelos curtos da inocente criança que Berenice passou suas mãos acolhendo a frágil garota para si. Naquele instante, não havia mais como negar a vida que se dispunha em suas mãos. Encontrou sua razão para seguir em frente no amor por ela, mesmo quando tudo parecia não ter mais sentido.
Os olhos azuis que surgiram no mundo também fizeram surgir em Berenice uma nova e estranha vontade de viver. Clarice, sua pequena menina, precisava dela e por ela, com todas as forças, Berenice arranjou um meio de sufocar a dor e se agarrar à vida de forma grata, de encontrar no sorriso da filha uma razão para continuar. Não sabia o nome da parteira ou se estava alucinando quando a viu. Mas guardou para sempre o agradecimento em seu coração.
No dia seguinte, Berenice estava só novamente. Havia pago uma moça chamada Maria que deveria vir e ajudar no parto. Acontece que o nascimento se antecipou por uma semana e Maria chegou após o sufoco. Ninguém viu a mulher de cabelos pretos enormes indo embora. Já estava de dia e todos pensavam que, em se tratando de um membro da família Verenime, a mulher provavelmente dormiria lá, pois deveria ter vindo de muito longe. “Quem diria?”, pensavam, “alguém ainda tem laços com a Sra. Verenime!”
        Apesar da solidão e falta de solidariedade da vizinhança, Clarice cresceu, inocente como uma criança deve ser. Seus cabelos acastanhados claros se uniam a uma estranheza no modo de perguntar sobre o mundo, no jeito de se comunicar e uma curiosidade infinita sobre a sua própria história, que ela sequer imaginava como havia começado.

Capítulo 1 – Quem é aquele, que invade o jardim e traz na garganta um grito mudo de quem precisa tanto falar?
Um detalhe curioso do ser humano é que a essência nunca muda. A criança de um ano tinha a mesma essência do que a menina de quatro, e a de sete, e a garota de nove anos. As particularidades de seu corpo, juntamente com certa teimosia e a ausência do pai, dava cada vez mais unidade ao ser humano que se formava.
Nove anos se passaram desde seu nascimento. Era o ano de 1907 e Clarice brincava com suas bonecas no pequeno jardim dos fundos da casa. A arquitetura, em si, não tinha nada que sobressaltasse aos olhos. Era um pedaço de terra muito bem tratado, o jardim começava logo depois da porta da cozinha e era cercado por um muro mais ou menos da altura da criança que ali vivia.
Quando Berenice chegou irritada de tanto chamar a sua filha para almoçar, a garota a fez parar por um motivo estranho; a filha estava perto de três borboletas que formavam um triângulo ao redor dela. Conforme Clarice andava e girava em torno de si para observar as três, estas rodeavam a menina.
Aquela situação seria facilmente confundida com um sonho, então, Berenice esfregou os olhos antes de a interpretar como real. Naquela época o jardim estava realmente paradisíaco em plena primavera. Berenice sempre cuidou dele e pode-se dizer que o teve como refúgio para esquecer e deixar de lado tudo que já não deveria importar mais. Cada flor que era ali plantada tinha o seu gosto e também a lembrança guardada sobre o que não queria mais se lembrar. Cada rosa tinha o cheiro misterioso do passado e, para cada pássaro que resolvesse enfeitar a paisagem com o canto, estava concentrada toda a paz que se almejava. Não seria diferente com as borboletas.
Os olhos de Berenice visualizavam o jardim. Olhos que estavam marcados por tudo o que passou, mas que, de certa forma, estavam bem melhores do que antes. Naquele dia, combinavam muito bem com suas vestes, que eram da cor da pedra ônix. Berenice não gostava de usar preto, pois não era viúva. Porém, não costumava usar as cores mais vivas do mundo. A exemplo do figurino da vez, sentia-se confortável com uma saia cinza longa que lhe descia até os sapatos pretos e fechados, combinando com a blusa bege que cobria os ombros e o pulso, sem qualquer resquício de decote. O cabelo estava preso em um coque bem feito. Apesar da amargura nas vestes, ela já não pensava mais no que havia um dia acontecido, pois, como veio a perceber, não há dor forte o bastante que o tempo não diminua.
Berenice chamou por Clarice, que a olhou espantada e fez uma pergunta com a estranha voz de quem estava em outra dimensão.
─ Você acredita no amor, mamãe? ─ Sua filha ajeitou seu velho vestido rosa claro. Clarice tinha os cabelos curtos e usava um sapato parecido com uma botinha.
Por Deus, onde será que ela aprendeu a perguntar isso?”, Berenice pensou.
─ Se eu acredito? Mas filha... eu te amo! ─ Berenice soltou um sorriso reconfortado, que passou mais a ideia de desconfiado.
─ Eu não falo desse amor.
─ E de qual tipo você fala? ─ Agora, ainda mais intrigada, a mãe decidira que seria bom parar de ler William Shakespeare todas as noites para sua filha. Uma leitura que, aliás, era um pedido de Clarice.
─ Eu não sei, penso que sim. ─ A garota falou quebrando o raciocínio de Berenice.
─ Por que não vamos almoçar e.… deixamos essas borboletas e esse assunto de amor para depois?
─ Está com medo, mãe? ─ A garota tinha o olhar surpreso. Era uma criança de temperamento forte e decidido.
─ Não. ─ A resposta não saiu convincente para nenhuma das duas.
Após a conversa, as borboletas pararam de rondar o jardim e duas delas sumiram atrás do muro. Uma se aproximou de Berenice que, assustada, deu um tapa, fazendo a borboleta ir para longe também.
─ Porque fez isso? ─ Clarice tinha o olhar bravo.
─ Ela era horrível, Clarice.
─ Pois era a minha preferida! Diga, por que você tem medo, mãe?
─ Vamos parar com isso! ─ Berenice estava irritada. ─ São apenas insetos.
─ Está bem. ─ Clarice respondeu embirrada.
─ Escute aonde você ouviu falar sobre isso... essa coisa de amor? ─ A palavra citada nos lábios era exatamente isso: algo-coisa. Coisinha chata que doía e permanecia. Não era à toa que todas as marcas do tempo na face de Berenice retratavam o sofrimento fruto do amor pelo marido que abandonou ela e a criança por um negócio no Brasil.
─ Em nenhum lugar. Na verdade, apenas em contos de Shakespeare. ─ Clarice deu um sorriso ingênuo ─ Mas não foram as histórias que me fizeram te perguntar... ─ A pequena gostava do tom como Shakespeare falava em seus livros, não queria que a mãe parasse de lê-los.
─ E o que foi? ─ Berenice engoliu em seco sua própria pergunta, não tinha certeza se queria ouvir as respostas.
─ Foi vê-las... as três borboletas juntas. ─ Clarice fez uma pausa, esperando que a mãe fizesse algum tipo de conexão com o que ela acabara de dizer, mas não houve qualquer sinal disso e a menina continuou ─ Sabe, mãe, o amor que estou falando é aquele amor misturado com paixão.
Ela arregalou os olhos ansiosos pela resposta da mãe. Afinal, nunca conseguiu chegar tão perto de alguma explicação, Berenice sempre evitava o assunto.
─ Acredito no amor, querida. Mas não para mim. ─ Era horrível para a mãe ter de remexer nas memórias mais obscuras, que guardamos em um lugar especial para evitar relembrarmos. Porém, ali estavam todas elas, aparecendo em suas covas, muito bem desenterradas.
─ Não entendo… ─ Clarice arqueou a sobrancelha.
Berenice olhou o seu refúgio de magoas, respirou o ar sereno como se buscasse alguma ajuda dele e decidiu que talvez fosse a hora de mostrar alguns fatos. Por fim, falou:
─ Está na hora de você saber a história, Clarice. Depois, verá que o amor não existe para pessoas como eu, ainda mais depois de tanto tempo.
        Ela segurou sua menina pelo ombro, levando-a para dentro de casa. Então, contou tudo o que aconteceu. Depois de saber a verdade, e não apenas trechos dela como poucas horas atrás, Clarice sorriu. Disse que ainda acreditava no amor para sua mãe. O que mais poderia lhe dizer?
Porém, as perguntas que rondavam a cabeça de Berenice, e que ela guardava no olhar, agora também estavam entalhadas em Clarice. Depois de ter contado o que sabia para a filha, Berenice foi direto para o jardim. Clarice ficou a olhando, apoiada na janela de madeira carcomida enquanto desenhava três borboletas. Viu a mãe pegando a pá, a água e a terra adubada. Seria possível plantar no fundo da terra os sentimentos ruins e colher apenas belas flores? Se fosse assim, pelo tamanho da beleza do jardim, muitas coisas haviam sido enterradas ali.
Com certa compaixão, Clarice saiu do quarto e ajudou a cuidar do local pela primeira vez. Desde então cuidou dele por anos inteiros. A garota também não parava de ler e de fazer perguntas sobre os mais variados temas. Alguns assuntos causavam estranho irritamento em sua mãe, então Clarice parou de lhe questionar e passou as dúvidas à professora da escola, depois para as amigas, e assim por diante.
No ano de 1909, já com onze anos, Clarice fazia uma casa estranha com gravetos do jardim, como de costume. Ela ouviu um barulho e sentiu uma onda de calor passá-la, o que não fazia sentido já que estava um dia cinzento e frio. Então, ouviu o caminhar de alguém na grama e olhou para o alto. Um homem alto se encontrava a sua frente.
Olhando para a menina, crescida, com seus onze anos de idade, ele estatelou e deixou as lágrimas rolarem. Clarice o olhou com pena; a lástima do homem era de cortar o coração e, ao mesmo tempo, um pranto reconhecível em seu ouvido.
        Ele estava também em choque, sem conseguir falar. Ela, no entanto, não ousou ficar calada e quando viu a mãe perguntou em um tom tranquilo.
─ Quem é esse senhor, mãe?
─ Clarice, lembra-se de que eu havia lhe dito...  ─ Sua mãe parava para tomar fôlego ─ Que seu pai teve de ir para o Brasil por ter um importante trabalho lá? ─ Berenice falava cada palavra devagar, ela quase sibilava com os lábios e, terminado o dito, desviou os olhos para cima. Parecia, desta vez, buscar a ajuda de algum Deus (qualquer um mesmo).
─ Sim. ─ Clarice engoliu em seco a explicação.
Em seguida reparou nos olhos azuis claros, o queixo arredondado e o jeito como sorria. Sua mãe não precisava terminar.
─ Pois bem, ele voltou. E desta vez parece que vai ficar mais tempo. ─ Berenice deu um sorriso de leve, mordendo os lábios. Em seguida coçou a cabeça. Sua respiração era forte. Ela ainda estava atordoada com tudo o que acontecia naquela tarde no começo do ano.
Clarice olhou para o homem ─ "meu pai" ─ ela pensou. Ele era muito bonito, jovem e, ao contrário da sua mãe, não apresentava sequer uma ruga de sofrimento no rosto. Porém, não havia tempo de reparar em mais nada. Ele a abraçou bem apertado, com a voz sufocada e contida. Também tinha cuidado extremo enquanto falava. Talvez não quisesse chocar tanto Clarice ─ não mais do que a garota já estava. Mesmo assim conseguiu esboçar uma frase trêmula:
─ Deus do céu, nunca mais te largo, pequena!
Capítulo 2 – Cada um pode ser capaz de construir seu refúgio particular e canalizá-lo para transformar sentimentos nas mais belas coisas do mundo

        As lágrimas rolavam do rosto de seu pai. A criança olhou espantada para a mãe e, ainda sobre os braços dele, o abraçou forte também. Fechou os olhos e sentiu seu perfume forte. Era bom abraçar a figura paterna. Clarice sempre imaginou como seria, mas a sensação foi muito melhor do que em seus pensamentos.
        Eles se soltaram depois do que parecia ser um longo tempo e Clarice continuou reparando nas feições de seu pai. Procurava decorar todas as linhas do rosto, assim, se ele fosse embora, ao exato minuto seguinte ela poderia ter sua imagem para sempre na memória.
        Depois de Roberto descarregar a bagagem e se ajeitar, ele sugeriu que a família fosse a um restaurante que havia visto quando chegou à cidade. Clarice encarou a mãe e com um sorriso a fez aceitar. Assim, em pouco tempo, já estavam no local, que era um pouco grande demais para o número de pessoas que o frequentavam e, por isso, tinha sempre a impressão de estar vazio. As luzes eram de um amarelo sútil, o que dava um efeito maior de irrealismo. Clarice temia acordar a qualquer hora e a horrível luz amarela fraca só aumentava a sensação de tudo ser um sonho.
        Ela inflou as narinas respirando o aroma convidativo. Havia passado por aquele restaurante milhões de vezes. Sempre sentia o cheiro da comida que parecia deliciosa e lhe dava água na boca, mas nunca havia ido lá porque ela sabia que era um daqueles lugares que Berenice definia como: “com frescura demais”. Ou seja, ele era muito caro para o que poderiam pagar.
        A garota voltava a fitar seus pais. Era o primeiro almoço em família e, largando as observações e o olhar encantado, Clarice começou a esboçar uma conversa. Afinal não poderiam ficar esperando a comida calados do jeito em que estavam.
─ Então como vão os negócios no Brasil, pai?
        Berenice e Roberto se entreolharam estranhando o questionamento. Mas, com um sorriso bem aberto, Roberto respondeu:
─ Está indo muito bem! O lucro é ótimo.
        Clarice percebeu uma covinha do lado direito, ela também tinha uma. Seu olhar brilhou e ela continuou a conversa:
─ E o que vocês fazem lá?
─ Tecidos, dos melhores. ─ Roberto deu uma ênfase na palavra “melhores” e riu. Queria passar a ideia de ser algo realmente importante para que a filha se entusiasmasse com aquilo. Como se fosse possível deixar Clarice ainda mais encantada.
─ Trouxe um para minha mãe costurar para mim? ─ Clarice perguntou na mesma hora. Estava sendo espontânea.
─ Clarice! ─ Interrompeu a mãe, que quase se engasgou com o pedaço de pão que comia.
─ Qual o problema? Ele é meu, pai, não vejo mal em perguntar. ─ E não via mesmo, afinal se ele tem uma fábrica de tecidos nada mais normal do que trazer uma amostra para a filha quando quer cativá-la após tanto tempo, certo? Era o que a menina esperta pensava.
─ Ela tem razão. ─ Roberto sorriu satisfeito por ter uma filha questionadora. ─ Não trouxe, querida. Os tecidos que se vendem lá são apenas para mulheres como a sua mãe. ─ Roberto inclinou um pouco o tronco na direção de Berenice. Era evidente que ele queria estar perto dela ao mesmo tempo em que estava da filha.
─ E o senhor trouxe um para ela?
Dessa vez Berenice não pareceu perturbada com a pergunta da filha.
─ Eu acredito que ela não iria desejar um. ─ O pai respondeu com alívio por ter essa resposta na ponta da língua.
─ Não mesmo, mãe? ─ Clarice estava surpresa. Se eram para mulheres como sua mãe, por que ela não iria querer?
─ Se ao menos ele tivesse se lembrado... embora eu não goste dos tecidos de lá, ficaria feliz e até faria uma roupa. ─ e, com certeza, se ela pudesse lançar raios com os olhos o faria naquele minuto.
        O alívio de Roberto passou. Ele não conseguiu responder nada além de um: “Você é incrível Reni”. Mas a sua resposta improvisada logo foi coberta pela fúria de Berenice.
─ Ninguém mais me chama assim. ─ Ela desviou o olhar para o lado. A quantidade de ar que exalava carregava uma insatisfação total.
─ Ninguém mais chamou depois que eu parti? ─ Ele falou em tom baixo. Era estranho pensar em como o apelido havia sido tão comum antes e agora sequer era mais usado.
─ Eu os fiz esquecerem.
─ Como?
─ Falei que me lembrava de você. ─ Berenice olhou para baixo.
        Roberto não encontrou palavras para responder. Porém, Clarice começou a rir um riso caloroso que quebrou o diálogo gélido do casal. Algo que só uma criança poderia fazer naquela situação. Por fim, ela disse:
─ Reni, mãe? ─ Ela nunca havia ouvido nada parecido com o apelido.
─ Sim, Reni. ─ Berenice se sentiu incomodada. Pelo o que conhecia da filha, certamente ela iria adorar a nova maneira de chamá-la.
─ Vou começar a usar.
─ Melhor não, querida.
─ Por que não? ─ Clarice olhou-a curiosa.
─ Sim. Por que não? – Dessa vez era Roberto que fez questão de perguntar do jeito mais saboroso que conhecia.
─ Por Deus, não faça a cabeça da criança, Roberto.
─ Claro que não. ─ Ele deu um sorriso singelo.
        Estava estampado no rosto oval e bem alimentado de sua mãe que aquelas letras pronunciadas perfeitamente juntas causavam desgosto. Não foi preciso dizer mais nada, o clima forte foi quebrado pelo macarrão com grandes almôndegas que saciaram a fome de todos.
Depois do melhor almoço que Clarice já comeu na vida, o pai ainda tratou de lhe fazer um pequeno agrado. Eles foram juntos até o centro da cidade ─ que na verdade não ficava muito longe dali ─ e Roberto levou Clarice a uma loja. Lá dentro, havia um cheiro de almíscar e grandes rolos de tecido que vinham desde o teto até o chão. Era de um colorido muito bonito de se observar.
A mulher, no entanto, falava de um pouco grosseiramente. Clarice parou de notá-la quando reparou nos vestidos atrás dela. Percebeu que a vendedora os fizera. Então, a garota lembrou-se de seu antigo pensamento: cada um pode construir seu refúgio particular e também pode produzir coisas belas nesse refúgio.
        Antes disso, antes mesmo do pai comprar o vestido que Clarice mais gostou ─ quando começaram a penetrar pelas ruas do centro e entraram numa ruazinha ainda menor ─ Berenice já sabia o que Roberto tinha em mente. Naquele dia ficou comprovado como ela ainda conhecia bem aquele homem.
        Ele continuava robusto, bonito, mas agora tinha pequenos fios brancos em meio aos cabelos. Apesar de não saber o que havia acontecido com o Roberto do passado, de uma coisa Berenice estava certa: ele não havia mudado em qualidades ou defeitos.
Na noite de sua chegada, Roberto dormiu em um quartinho extra que havia na casa de Berenice. Poderia ser apenas uma impressão, mas para Clarice os dois ainda se sentiam atraídos um pelo outro. O destino estava voltando a se laçar entre eles.
        No dia seguinte, ficaram pai, filha e mãe unidos no pequeno balanço do jardim. Citar o velho balanço havia sido desnecessário, pois nunca ninguém sentava lá. As plantas se tornavam ativas por entre os ferros e só restavam pequenos pedaços de branco em meio ao verde.  Os pés dele estavam carcomidos pela ferrugem. Porém, não deixava de ser um balanço bonito, apesar de não ser a primeira coisa que se olhava no belo jardim por entre as flores. E quaisquer que fossem os olhos que chegassem mais perto do balanço parariam antes para admirar os girassóis. A pessoa, então, se esqueceria do que estava logo atrás.
        O pai passou os longos braços pelo ombro da filha. No momento não parecia importar o que havia acontecido, o que a mãe pensava ou se o pai as deixaria de novo (porque este era um pensamento recorrente em Clarice). A única coisa que se podia pensar era como estava um clima ameno e como a vida havia sido boa em trazer seu pai de volta. Assim, sustentando as partes que faltavam, acabava sendo muito fácil olhar a vida dali; de um balanço recuado em meio ao jardim.
─ Sua mãe me contou que parou com as aulas de português, filha. Precisa voltar a estudar. ─ Roberto quebrou a calmaria que ali se encontravam.
─ Para quê? Acho muito trabalhoso. ─ Clarice respondeu querendo evitar aquele esforço.
─ Não diga isso, talvez um dia tenha que me ajudar ou até assumir os meus negócios no Brasil. ─ Roberto respondeu um pouco preocupado. ─ Você precisa recomeçar as aulas o quanto antes.
─ Seu pai tem toda a razão. ─ Berenice tornou assertiva, embora tenha estranhado o tom e o relâmpago que foi a lembrança daquela necessidade na voz de Roberto.
─ Estive pensando em outra coisa também, Berenice. Por que não mudamos de casa? Essa está tão velha e caindo aos pedaços. Posso comprar uma nova em folha. ─ Roberto continuou.
─ O quê? Eu não vou me mudar daqui, Roberto. ─ Berenice respondeu de supetão e o encarou em dúvida.
─ Mas outro país faria bem para a educação de Clarice. ─ Roberto continuou e provocou um desconforto ainda maior em Berenice.

─ Mudar de país? Você está louco! Por quê isso agora? Você volta como quem não fez nada e me sugere isso? ─ Berenice o olhou brava e Roberto calou.

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