sexta-feira, 10 de junho de 2016

exercício Claudia

Moinhos

Todo alvorecer tem aroma de livro novo, aquele que seus olhos ansiosos desejam percorrer cada página, saborear como se faz com a mais tenra fruta, apesar de todos os percalços, o ressurgimento do dia, instante em que as agruras noturnas se dissipam, porta sempre um lirismo que na correria cotidiana nem percebemos.
Durante a noite se entupiu de analgésicos, precisava de alguma maneira encontrar certo alívio, a embarcação balançava causando dores insuportáveis, diversas vezes despertou, não conseguia ver o rosto do timoneiro, não era homem do mar mas, da terra, nela tinha conseguido tudo na vida, eram águas turvas, as outras pessoas não demonstravam qualquer alegria, eram seres resignados, quantas conquistas sobre o seu cavalo, não podia aceitar aquilo, observou o condutor da nau reconhecendo Caronte, sacou a sua espada, exigiu que retornasse ao porto, queria ver gente, nada de despedida, queria abraçar o seu fiel amigo, a face cruel daquele indivíduo que só conduz para frente e, não admite retroceder, se levantou, trôpego e com toda a bravura que lhe restava, partiu para cima mas, antes que se aproximasse daquele ser soturno apagou.
Despertou do pesadelo com mão de Dulcinéia em seu rosto, a mais bela de todas as mulheres diante de seus olhos, em meio aos delírios de febre ela o conduziu ao doutor, entre pares tão rotos quanto ele, apenas esperava que algo acontecesse, mergulhou nas aventuras do cavaleiro de triste figura, a luta contra os moinhos era tão complicada quanto respirar naquele instante.
Como um guarda Belo, o homem de branco seguia o roteiro de seu turno, flanava por olhares carregados de agonia, com o tempo os murmúrios de dor não incomodam tanto os ouvidos, o olhar torna-se frio, no entanto, naquele início de tarde, observou sobre a maca um indivíduo com a cabeça dentro de um livro,  se aproximou, estabeleceu um diálogo com a pessoa, entre comentários, algumas risadas, que o paciente não podia corresponder, o rosto rubro era a tentativa de realizar algo que era a sua marca registrada, o sorriso e a ironia, percebeu que havia algo de sério, puxou o prontuário, estudou cada radiografia, chamou um enfermeiro e ordenou que levassem o paciente para o centro cirúrgico.    
A tarde, que bronzeia o corpo do dia para o passeio sob um céu de estrelas, seguiu para ele em sono profundo, adormecer é não seguir o giro dos ponteiros, ali, no vazio, entregue o corpo ao trabalho dos homens, ter habitado a terra não possuía significado nenhum. Quando, enfim, abriu os olhos, o branco não era dessa tosca percepção que pregam tantas religiões,  quarto de hospital, aroma tétrico, a boca não salivava por um cigarro, que ele mama, mas, por uma coca-cola, que ele odeia, diante dele não havia Dulcinéia, só o amigo de horas atrás, já sem jaleco, que balbuciou em seu ouvido:
- Não tente falar, todo procedimento ainda é recente, salve Dom Quixote.







O problema é beber mal

Nada pode ser mais chato do que quando você escuta a frase “se lembra o que disse ontem”? Cara, isso é ridículo, em geral, a pessoa fica observando o seu caminhar, os seus atos, para depois vir punir você com a tal frase, em geral, dita antes daquele bom café com quase nada de adoçante e bem forte numa manhã que até sol se insinua tímido. Acho que as coisas devem ser faladas na hora, sem frescura, sem medo de nada, provavelmente falando na hora, irão sacar o sarcasmo que rondava tal frase, tem chatice demais nestes dias todos, “ce” não acha? Deixei de ser franco para ser hipócrita, é melhor assim, poucas pessoas estão dispostas a escutar a verdade, saca? Não que tenha me tornado cínico, acho que é melhor viver no superficial, na ironia, beijo gente que sei que me odeia, mas não diz justamente por não saber dizer o que sente, se disser, talvez com jeitinho, possa provar do contrário, levando a figura quem sabe até a pagar alguns tragos. O problema está justamente no fato de que as pessoas bebem mal, a péssima qualidade dos líquidos levam para um humor horroroso, quando não bebem ficam ainda pior, se julgam agentes da moral e dessa balela toda de bons costumes, de exacerbações sem sentido, se você bebe e fuma, então, vira o próprio Judas e quer saber? Acho que o cara não devia ter entregado o tal Cristo que já se julgava na cruz bem antes da coisa toda. Esse lance de vida cotidiana, tudo papai mamãe, porra, muda a posição, tenta outra parada, as coisas foram boladas para encaixe. Uma vez um amigo me disse que, lá no escritório, o chefe pede para ele pegar a caixa box, ele simplesmente gargalha internamente por ter que buscar a caixa caixa.  É preciso quebrar paradigmas, do que adianta tanta leitura se a gente não bota caraminholas na cabeça dos outros? Como disse aquele filósofo careca, pensar é sofrer, acho justo isso, não pensar é o que? A menina lá da repartição, tão linda, um doce de pessoa que quando se levanta para o café faz com que a agente confunda o carimbo verde com o vermelho, soltou a frase através daquele batom brilhante, lábios carnudos, de que ficou claro depois dos pênaltis que deus é brasileiro, silenciamos, alguns por convicção, outros por sei lá o que? Eu, pelo já escrito de me manter irônico, e ela, vale qualquer esforço nesse sentido, deveríamos concordar com tudo que diz qualquer beldade até que ela apareça agarrada com um troglodita qualquer. Enfim, Rufino quebrou o silêncio com seu temperamento duas doses acima foi dizendo, deixe de ser besta, é sabido que deus não existe e, diante do que ocorreu sábado, se existe é burro por não entender nada de futebol, a mocinha ficou vermelha, colocou as mãos no rosto mostrando para todos as suas unhas pintadas com as cores da pátria, caiu no choro, Rufino saiu de seu cercadinho, abraçou a pequena como se fosse uma filha e finalizou, para deus não tem remédio, se não ganhar esta Copa, vai ter outra daqui a quatro anos na Rússia, terra da deusa vodka. 

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