quinta-feira, 23 de junho de 2016

Leila 

Memórias plantadas 

Histórias infantis


- Mas o monstro não era o pai?
- Monstruosidade sei que existe, mas monstro? Um alguém assim tão mal contrário do bom? Definidamente não, respondeu Maria,  subvertendo o elementar princípio jurídico das partes contrárias.
A pequena sala do tribunal onde os peritos sociais discutiam os casos, tornou-se mais abafada com a agitação das mãos em busca de café e de gestos que completassem o sentido do que as palavras não davam conta. A sentença do Juiz acabara de ser proferida.  Traduzido em linguagem dos comuns ficou assim determinado: o pai recupera o poder familiar perdido há um ano, a mãe perde a guarda dos filhos e poderá encontrar com eles com acompanhante, os filhos saem da casa da mãe e passam a morar e serem cuidados pelo pai a partir desta data. 
Uma a uma, as cenas daquele espinhoso processo foram se entremeando na memória de Maria. Num dia quente de fevereiro, pela primeira vez Luizinho, uma miniatura de gente com três anos, entra na sala determinado, com seus passinhos firmes e decididos, olha seu entorno, escala a primeira cadeira que vê, ajeitando-se.  Com os pés balançando sem alcançar o chão, não mediu esforços para esticar todo o corpo e pegar a caixa de lápis de cor e os papeis do outro lado da mesa.
- Ah você quer desenhar? Então a gente vai conversar sobre seu desenho, que tal?
- Não, eu vim aqui para falar do meu pai.
- O que você quer falar do seu pai?
- Que ele é do mal, e que eu não quero nunca mais ver ele.
- Mas por que Luizinho você acha que ele é do mal?
- Porque ele brinca de por formiga na minha calça e também na da minha irmã, e procura no bumbum. Põe lá no pé e a formiga vai subindo...  e aí ele procura na gente, com o pipi dele no buraquinho do bumbum, que a formiga entra como entra nos buraquinhos do formigueiro...  e  também abelha, e também minhoca, tudo aqueles bichinhos que tem no livro dele.
- Que livro?
- O que ele escreve uai...
- Ah então você tá falando da historinha do livro.
- Nãaao,  to falando do que meu pai faz comigo e com minha irmã.
Maria tendo estudado o processo de cabo a rabo, sabia que se tratava de um complicado caso de denúncia de abuso sexual pelo pai,  um conhecido escritor de histórias infantis. O testemunho de Luizinho naquele dia, começou e parou no suspense aterrador de um enredo girando em círculo. O menino tinha uma eloquência rara em crianças tão pequenas. Talvez fosse assim por ser filho de professora com escritor!   Mas, estranho: como podia falar de formigas, minhocas, subindo pelas pernas, entrando no bumbum,  sem um sinalzinho de repulsa.
Olhando de viés, jeitinho traquino, Luizinho parou de falar, dedilhou a  borda da mesa,   foi se curvando,  deslizando as mãos para a caixa de lápis de cor. Ao perceber seu interesse Maria lhe entregou papeis e a caixa de lápis. Dono do seu tempo, meneando a cabeça para se livrar da franja que teimava em ficar nos olhos, foi riscando o papel com vontade,  de lado a lado  da folha, escolhendo as cores mais vibrantes, vermelho, verde,  azul, amarelo... parou, olhou o que fez, observou  o lado de cima do papel em branco e voltou à sua tarefa com afinco. Dali a pouco Luizinho levantou-se  decidido dizendo:
- Vou mostrar para minha mãe!
- Mas antes mostra pra mim Luizinho?
Um desenho divertido, contornos bem definidos para um pirralho que havia acabado de contar aquela história de terror: um arco íris com todas as cores atravessava a folha tocando os raios de um sol amarelo forte,  um sol  enorme no  canto direito do papel, com cara de gente e óculos escuros.  
Luizinho saiu correndo da sala, brandindo sua obra de arte, em direção à mãe e à irmã que aguardavam na sala de espera.   Fabiana, sua irmã mais velha, resistiu amuada a expulsão do colo da mãe com a chegada estabanada de Luizinho. Estela a mãe das crianças, toda jeitosa e paciente abriu os braços, segura de que poderia aninhar a ambos, pacificando a disputa pelo território de seu corpo. 
Maria parou um instante absorvendo aquela cena de família feliz. Ainda ressoava nos seus ouvidos o eco da história cruel que acabara de ouvir. Aproximou-se chamou Fabiana, estendendo-lhe a mão para irem à sala de entrevista. Um tanto intimidade, a menina lhe deu a mãozinha pequena, ajeitando com a outra,  a blusa que lhe escapou da sai rodada.  Bastou apenas dois passos para deixar o dengo no colo da mãe e virar uma mocinha vaidosa e bem comportada.   
- Você sabe por que veio aqui conversar comigo Fabiana?
- Sei.
- Por que?
- Para falar do papai.
- Sim para falar do papai, e também de outras coisas, eu gostaria de conhecer você, saber onde é sua escola, o que gosta de fazer...
- Mas eu não quero falar de coisas. Quero falar do meu pai que fez mal pra gente,  que é por isso que eu vim aqui.
- E porque você quer tanto falar sobre seu pai?
- Para você falar pro seu Juiz.
- Ah como você sabe das coisas hem? Sabe até que aqui tem um Juiz?
            - É e ele nunca mais vai deixar meu pai ver a gente!
- E você não quer ver seu pai? Por que?
Silencio...Olhar vasculhando cantos da sala, com voz baixinha foi trazendo frases inteiras em fluxos ininterruptos.   A mesma história, igual enredo e sequência de palavras usada por Luizinho. Também falava das formigas entrando no buraquinho do bumbum e o papai procurando com o pipi dele.  Falava sem emoção, de uma vez, sem manifestar sensação física.... Será que estas crianças estavam tão traumatizadas que não conseguiam mais  expressar o que sentiam?
- Antes do seu pai fazer o que me contou,  como ele era ? Vocês costumavam brincar juntos?
-  Ele sempre levava a gente para casa dele, do vovô e da vovó,  lá no bairro mais longe, brincava com a gente no jardim e depois na hora de dormir fazia isso.
- Sempre? Você ficava brava com ele? Saia correndo?  
Fabiana balançou os ombros, girando a cabeça sem deixar claro se estava querendo dizer sim ou não.
- Você contou pra sua mãe quando ele começou fazer isso?
- Ele disse pra gente... parou,  observou Maria. Silencio... soltou de uma vez, quase gritando:  ele disse se  a gente contasse para minha mãe e minha avó, mãe da minha mãe que mora com a gente ele ia por um pó na comida delas.
- Um pó?
- É um pó mágico de fazer dormir e elas não iam acordar nunca, nunca mais!
- Você ficou com medo?
Fabiana fez um bico, mexeu os ombros dando ares de quem não queria mais aquela conversa.
- E você está na escola? Que ano você está?
- Estou no primeiro ano, mas ontem eu não fui, antes do dia de ontem, e antes, antes do dia de ontem eu não fui também.
- Nossa, porque Fabiana?
- Porque eu não dormi de noite, e não quero sair de casa porque eu não quero encontrar meu pai.
- Mas o que você acha que ele pode fazer?
- Não quero encontrar ele, insistiu! Quero voltar pra minha mãe.   
O corpo a corpo com aquelas crianças  machucava mais do que as estatísticas noticiadas do último informativo de 2015:  Metade das crianças em todo o mundo - o que representa mais de um bilhão de meninos e meninas - sofreu algum tipo de agressão física, psicológica ou sexual ao longo do ano passado, disse o representante especial do secretário-geral da ONU sobre Violência contra Crianças. A tragédia humana nascia muitas vezes dentro de casa. E aquele casal com profissões ligadas ao mundo infantil? Gente com dinheiro, logo se via pelo volume de folhas do processo e os escritórios de direito que escolheram.  
Os autos já atingiam mais de 800 páginas,  abundava em informações dos advogados dos dois lados, exames de corpo delito, relatório do pediatra, do psiquiatra, dos psicólogos,  decisões da Vara da Infância e Adolescência, da Vara de Família, manifestação do Ministério Público e o principal: o testemunho das crianças. De  uma nitidez cortante, acompanhados dos sintomas clássicos de crianças violentadas: insônia, terror noturno, enurese, encoprese e vômitos.  
Era preciso evoluir com o estudo, mas sem violentar mais aquelas crianças. Como?  O caso exigia tempo e pressa. O pai perdera o direito de ver os filhos com a ação impetrada pela mãe, já passava dos quatro meses. Tempo enorme pra criança pequena. Mas, em caso de dúvida sobre a segurança das crianças, decisão tomada inaudita altera parte (sem ouvir a parte contrária).
Porque aquela situação veio à tona dois anos depois da separação dos pais? Aconteceu alguma coisa naquele casamento e descasamento que dessem pistas dessa desordem? Se o pai conviveu tanto com os meninos porque esta aberração só apareceu agora?  Como era a sexualidade daquele casal? Era preciso conhecer estes adultos!
A mãe foi ouvida antes do pai. Mulher jovem e atraente, Estela junto com as crianças parecia a mãe  mais realizada desse mundo:  carinhosa, ares de pessoa forte e determinada. Certo dia enquanto aguardava pacientemente mais uma entrevista, Maria a viu brincando de teatrinho com os filhos, fazendo personagens com seus dedos, arrancando gostosas gargalhadas das crianças. Cena incomum naqueles corredores frios do tribunal.  Mas seu jeito mudava repentinamente nas entrevistas a sós. Quando falava, levantava as sobrancelhas, abrindo um olhar assustado:
- Meus filhos conseguiram falar tudo o que o pai fez com eles? Eles vão ficar bons? Eles estão tão traumatizados, acordam chorando, Fabiana tem ânsia de vômitos, não quer ir para escola...disparou a falar do quanto as crianças estavam mal. 
 A cena principal daquele drama já estava escancarado. Era preciso conhecer as agora as cenas secundárias, os bastidores, Maria procurou acalmá-la propondo que conversassem sobre sua vida, sua história do casamento e da separação, sobre sua vida atual.  
Estela escorregou na cadeira, aprumou a coluna no encosto abaixando os ombros e se desvencilhou da bolsa. Levantou o queixo e seu olhar agora refletia um ar malicioso ao falar de Fabrício.   Conhecera-o numa livraria, rodeado de professoras, autografando seu primeiro livro de histórias infantis. Fora àquele lançamento interessada pelo tema do livro que tratava exatamente o que queria trabalhar em suas aulas como professora do ensino fundamental. Ao ver a figura sorridente do autor, interessou-se logo por aquele homem que causava frisson junto a plateia praticamente feminina. “Parecia um ser imantado” disse ela. Com o livro na mão, andava pra lá e pra cá, e ele nada dele olhar,  queria chamar-lhe atenção, não sabia como. Ali não rolaria mais do que um rabisco de nome na primeira página do seu livro. Queria mais.  Com astúcia aguçada convidou-o para uma roda de leitura do seu livro na festa da primavera que estava preparando na escola onde dava aula. Nada disso estava programado, a ideia nasceu naquele instante.  Dai ao casamento não demorou mais que seis meses.   Viveram bem, “sem muito glamour”, salientou, até Fabiana nascer. Resolveu deixar de lecionar assim que casou pois estava infeliz  de ser professora. Contava com bons recursos da família, Fabrício ganhava bem e ela não queria deixar a filha na mão de estranhos. Tinha sua mãe como modelo. Mulher dedicada, deixou tudo para cuidar da filha e ainda continua lhe ajudando até hoje, enfatizou.  Tornou-se sua companhia quando a filha nasceu..
Fabrício não saía mais do mundo, com suas  viagens, palestras e lançamento de livros. Inebriou-se pelo sucesso, esqueceu que tinha mulher, ingrato não reconheceu que deixei tudo para ficar com ele e os filhos. Quando estava em casa vivia no mundo da lua em seu escritório, ou então ia brincar com Fabiana. Depois que Luizinho nasceu, aí que a coisa piorou. Fabrício passou a dormir com o menino, porque eu perdi o ânimo pra tudo, até pra trocar as fraldas dele e dar de mamá. Comigo? Virou  um apático.   
Era possível sentir dor das palavras de Estela ao falar de Fabrício. Sua  voz saia embargada como se tivesse espinhos atravessando a garganta, olhar baixo, entrelaçava os dedos, mexendo nervosamente o anel enquanto falava. Mas que coisa estranha,   estavam separados há dois anos, e pelos autos ela havia pedido separação...e a moça continuou.    
- Fabricio chegava de suas palestras e lançamentos e não sabia falar em outra coisa que não fosse de seus livros. Nós? Em casa eu que tinha de decidir tudo. Ele era um bobão com as crianças. Tinha que falar como ele devia trocar Luizinho, como ficar com as crianças no parque, se não olhasse era capaz de deixar os meninos descalços na grama dizendo que era para as crianças sentir melhor a natureza.  
- E entre vocês como era?
- Eu não existia como mulher, só como mãe.  A gente só conversava das crianças. Nossa vida sexual virou uma raridade.  Eu queria salvar meu casamento, comprava lingeries mais extravagantes, desfilava no nariz dele e nada. Ele  ficava todo sem jeito,  ria dizendo que  preferia fazer ao natural, como papai e mamãe, sabe? E brochava.  Fui aprender dança do ventre, procurava formas de provocá-lo,  dançava pra ele e sabe o que me dizia? Que parecia ser um teatro, que eu estava representando e ele não gostava. Ele me humilhava com isso. Só poderia ser outras mulheres fora de casa. Afinal suas companhias eram na maioria professores, quer dizer professoraaas.  Começou a chorar copiosamente
- Eu reclamava para minha mãe da frieza dele. Ela vivia me alertando que Fabricio ficava muito com as crianças. Eu não entendia o que isso queria dizer. Achava que era para me evitar. Aí me enchi,  pedi a separação, ele não queria, fiz isso  várias vezes até ele se tocar. Um dia para minha surpresa,  ao voltar a mesma ladainha na cama, ele  aceitou e foi embora na mesma noite.

- Como foi o casamento de vocês Fabricio?
- Eu amava Estela, ela tinha lá suas esquisitices, mas a gente tinha uma família bacana. Ah!  como eu gostava de chegar em casa,  ficar com as crianças rolando pra cá e pra lá. Era como se tivesse voltado à infância. Quando Luizinho nasceu, Estela teve aquele problema...como chama? Ah! depressão pós-parto. Fiquei perdidão. Sem jeito fui aprendendo cuidar daquela miniaturazinha de gente, Estela não queria nem olhar pra ele. Ela nunca aprovou meu jeito de estar com os meninos. Pra ela e os deixo muito soltos e correm perigo comigo. É uma boa mãe, tem seu jeito de educar e não admite ser contrariada. No início, cheio de salamaleques, eu tentava lhe persuadir. Mas era briga na certa! Pra evitar confusão eu cedia sempre.  Para mim, aqueles momentos livres com meus filhos eram alegria pura, não queria estragar por nada, saía do parque com eles cheio de inspirações pra escrever.  Mas, em casa?  Estela virava uma mina explosiva. A coisa entortava de vez entre nós quando eu tinha lançamento de livros. Eu queria sua companhia e ela ficava amuada, não me acompanhava, mesmo se eu insistisse. Eu falava que sua vida ficava muito em torno das crianças, e ela dizia que eu não valorizava sua dedicação. Talvez ela tivesse razão, achava sua vida uma chatice só em casa! A conversa e o clima entre nós foi murchando, esfriando...  
- E como era a vida sexual de vocês?
- Ah, como todo casal, falou cabisbaixo, encabulado.  - Às vezes quente e próxima, outras nem tanto. Quando ela teve depressão pós-parto e minha sogra, dona Luzia,  veio morar com a gente aí é que virou um inferno.
- Por que?  Fabricio respirou fundo e continuou.
- Dona Luzia me criticava em tudo. Parecia que eu era culpado do estado de espírito da filha. Eu dormia com as crianças e ela não gostava, ficava me olhando no quarto, saía pela casa arrastando o chinelo, de roupão, resmungando.   Fabiana com ciúme do irmãozinho ia dormir com a mãe e eu dormia com o Luizinho. Estela não tinha ânimo pra nada e nem paciência quando o bebê  chorava querendo mamar.   Mas... você me perguntou da nossa vida sexual.   Eu solto minhas fantasias na escrita sabe, mas, na hora do sexo eu gosto mais é da coisa normalzinha. Estela era diferente. Ela gostava de fazer surpresas e nossos relógios passaram a girar com ponteiros ao contrário.
- Como assim?
- Ah, a coisa que mais me incomodava: ela se aprontava toda na hora de dormir como se fosse pro cabaré, dançava de pornô com aquelas roupas mais extravagante e eu? Brochava! Uma lástima. Ela ofendida e eu sem lugar neste mundo de tão envergonhado, não sabia consertar. Aconteceram uma, duas, três, sei lá quantas vezes. Aí quando era eu que lhe procurava, ela não queria. A gente tinha a maior dificuldade de conversar disso, mas conversamos. Ela pediu separação. Eu não queria, pedia um tempo. Achava que as coisas podiam melhorar. Os desgostos da cama vazou pro resto da vida, nada do que eu fazia prestava. E vice-versa. Nos separamos por insistência dela, há dois anos.
- Como foi depois da separação?
- No dia que eu aceitei, ela pegou um bocado de roupas minhas enfiou numa mala,  pôs no corredor e gritou: suma. Era meia noite, as  crianças estavam dormindo, eu assustado não queria acordá-las, não tive outra escolha a não ser sair. Fui para a casa dos meus pais. Depois me arrependi. Deveria ter feito a coisa mais civilizada. Depois de uns dias voltamos a conversar...Eu sentia muita falta dos meninos. Comprei um apartamento próximo, passei a levar as crianças para escola todos os dias e ficar com elas em alguns finais de semana e férias. Caramba como foi duro me acostumar. No início, quando as crianças ficavam comigo no final de semana,  Estela ficava junto, dizia  que eu não cuidava direito deles. Eu ficava meio constrangido, mas aceitava. Ano passado aquilo foi me irritando. Depois das últimas férias disse pra ela que sairia sozinho com as crianças. Ela exigiu então que eu fosse para a casa dos meus pais, porque lá sim as crianças teriam segurança, eles ajudariam eu cuidar dos pequenos. Era bom porque meus pais curtiam muito os netos e lá tem uma bela área para brincar. 
- Você acha que tinha dificuldade de lidar com os meninos? Porque atendia todos os desejos dela?
- É que, é que... ela é muito cuidadosa, boa mãe...mas hoje vejo que não deveria dizer amém a tudo. Devagarinho, fui arranjando desculpas para ela não me  acompanhar nos meus dias de ficar com os meninos, até porque eu comecei a namorar de novo.  Como abrir espaço para meus filhos conviver com minha companheira, se ela não desgrudava? 
A entrevista demorou mais de duas horas e de repente Fabricio se aquietou, olhando pela janela, com os olhos lacrimejando. Era de fato um homem marcante como disse Estela, não que fosse bonito, nem tinha porte de atleta. Fazia-se presente, postura altiva e natural, gestos amplos, olhar macio, atento,  as bochechas gordas lhe davam um ar bonachão.  Sim quem olhava dizia que era um moço bonzinho. Seria um lobo em pele de carneiro? Ou carneiro oferecido em sacrifício? Como saber? Falsas denúncias de abuso sexual ou fantasias infantis, principalmente com crianças pequenas, eram os casos mais difíceis de serem provados.
Fabricio parecia um poço sem fundo de desespero e dúvidas. Ele que inventava tanta história, não entendia como os filhos criaram aquelas coisas exatamente com os personagens dos seus livros. Ficara mais perplexo quando os filhos passaram a rejeitá-lo e recebeu a ordem judicial de perda provisória do poder familiar. Enlouqueceu!   Seu jeito dizia mais de uma presa aterrada no fundo de uma armadilha do que um pai criminoso.  
Até aquele momento o estudo era uma soma de testemunhos sem nexo, embora a história contada pelas crianças fosse tão objetiva e escancarada.  Não estaria exatamente nesta clareza o enigma, se perguntou Maria. Era objetividade demais na fala daqueles pirralhos vazando cocô, xixi, vômitos, noites de terrores, não saíam daquele círculo?  
Maria sentiu que precisava sair do circulo de terror. Foi à escola para saber, quem sabe observar como as crianças estavam se relacionando com coleguinhas, com as professoras, como viviam o ambiente fora de casa. Surpresa! Ambos tinham mais falta do que presença no semestre todo. Fabiana matriculada no primeiro ano, faltava há mais de uma  semana, o mesmo aconteceu com Luizinho. As educadoras ligaram para a mãe, tentaram encontrar formas de facilitar, permitindo que entrassem atrasados se não se sentissem bem. Nada dava certo.
Ato contínuo a perita seguiu para a casa das crianças para saber porque não tinham ido aquele dia na escola. Lá estavam com a mãe e a avó, onze horas da manhã, em um dia ensolarado,  assistindo TV. 
- Porque as crianças não foram para escola Estela?
Dona Luzia se adiantou à filha, dizendo:
- Fabiana teve pesadelo outra vez dizendo que seu pai ia pegá-la para por formigas na sua perna. Não dormiu à noite levantou tarde por isso não quisemos força-la.
- Quando Fabiana não vai, Luizinho também não quer ir disse Estela.
De repente dona Luzia puxou Maria com força pelo braço, levou-lhe ao seu quarto e pediu pelo amor de Deus que ela ajudasse afastar aquele homem da vida dos filhos.
- Por que dona Luzia a senhora tem tanta certeza que ele fez mal aos meninos? Ainda não há provas. Pode ser fantasia das crianças.
- Crianças não mentem. Pode acontecer com elas o que quase aconteceu comigo e minha filha? 
- E o  que aconteceu com a senhora e Estela?
- Ela quase ficou órfã com doze anos. O pai dela não prestava, Estela tava ficando mocinha sabe, e ele me deu um pó que me tirou de órbita. Fui parar no hospital desacordada, quase não acordei.
Maria suspirou, sabia agora como costurar aqueles atos, Dona Luzia acabou de lhe entregar a ponta do fio escondido daquela embaraçada meada.


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