quinta-feira, 23 de junho de 2016

Não fique triste que esse mundo é todo seu

 Preste atenção, querida



O acidente na estação. A moça caiu, e eu lembro da cidade vivida pela primeira vez. A trilha sonora das manhãs com cheiro de Derby. Ó, olha o trem... Em pé na plataforma, eu aberta para o mundo, até para o fedor de cigarro vagabundo, para a programação musical repetida diariamente nos alto-falantes, para a mágica da coincidência provável de o comboio aparecer quando Raul cantava: olha o trem. Recém-chegada, eu palpitava com o caos, gozava cada lambida fria de vento, entrava satisfeita nas multidões sonolentas e perfumadas que se deslocavam abrindo o dia. Feliz de estar perdida. Antes de toda a luz implodir e eu passar anos trancada com medo do mundo e de mim. Antes de conhecer o irreversível. O pensamento que volta sempre ao mesmo ponto. A voz que sai disforme, em soluços, aguda, sobe e desce. A incapacidade duradoura de merecer um caminho.  
Um erro é um momento mas também uma sequência. O erro sou eu. Segundo o jornal, a mulher tropeçou e quebrou o fêmur nos trilhos. Eu mergulhei no mundo porque quis. Baixei um pé, depois o outro, pulei. Acordei resfolegante, cercada de sangue seco. Escada, não vi.
Depois do trauma, fui acometida por uma enorme capacidade de entender e perdoar. Não confundir com bondade: é retitude cega, santidade hipócrita. Sob ela, permanece a vontade de apagar, de dizimar, de matar. Mas não vontade de morrer. Só de me torturar com estilhaços de esperança. Rememorar sins que poderiam ter sido nãos e a esperteza que era cristalina burrice. Parte do tempo, nem lembro de quando virei pó, apenas sustento a sensação de derrota e fraqueza. Tento calcular quantas vezes por dia penso no abismo. O tempo todo. Hoje não pensei. Agora pensei.

Vem. E ela vai. Senta. E ela senta. Agora rola. Eles riem.
Ela quase chora, mas ri. O pior de tudo foi o riso. Porque ela riu junto. Foi como um tapa. Um tapa que ela tomou, depois pegou a mão agressora e lambeu, percorrendo com a língua cada um dos dedos e chupando os nós duros de articulação. É isso, só isso que você é, gritava o riso. E ela ria junto. E todos riam.


Quando acordei, nasci outra. Como se o choro clichê sob o chuveiro tivesse apagado traços que, durante a madrugada, algum sacana sem talento refez. Ou como se as horas de sono tivessem desmantelado adornos. Meu olhar de ressaca escondia um buraco sem oceano. As sobrancelhas cansaram de simular desafios. Os dentes rangidos perderam o corte.
Sobrou uma versão embotada, ou enxuta, de mim. Menor e mais pesada. O que não significa densa. Caminha vacilante. Os olhares que antes me atiçavam agora querem me estraçalhar. Rasgariam minha carne barata com o pouco caso da adolescente que masca chiclete diante de mim no assento do trem. Eu poderia desistir. Assumir a derrota. Ou construir um mundo sobre este mundo. Ruas, casas, parques e comércios que soterrassem a arquitetura duvidosa, os terrenos baldios, as bugigangas plásticas das lojas de descontos, os moinhos abandonados, as lanchonetes fedendo a gordura velha. Mas o lodo continuaria ali. Um dia, brotaria nos gramados, contaminaria a água de beber, retornaria pelos encanamentos e, para horror das donas-de-casa, empestearia os banheiros perfumados por sachês.
Não quero tanto ódio. Por isso afundo mais. Ele me chama e eu vou. Bato à porta, espero. Dos escrotos, o menor. Mostro os dentes quando ele abre.


Fugiram todos. Ficou somente ela na piscina vazia da casa suja e vazia. Ou quase ela. Enfim acordou e partiu.


Levantei da poça sem querer limpar as crostas grudadas na pele. Eram memorabilia mórbida do que eu fui. Não das noites vermelhas cegas de giros e quedas, mas da garota que via tudo sem ver nada.
Não sabia pedir ajuda. Sozinha, cuidei das manchas. Acariciei, cheirei, pus para dormir. Temia que, se desaparecessem, levariam o que restava de mim. Enquanto eu visse o sangue, o sêmen e o cuspe, poderia dizer que ainda enxergava alguma coisa. Ainda  tinha alguma coisa.
Talvez não sobre nada. Talvez as lâminas dos acontecimentos tenham me raspado por dentro, criado uma maçaroca mal-cheirosa de ressentimento e raiva que é tudo o que eu sou.

À espera


“Ela vai ficar tão triste. E bem que me avisou.”
Do banco traseiro do carro, dava para ver o cabelo castanho ondulado da mãe, solto atrás e enroscado na gola do casaco do lado direito. Ele sentiu um aperto. Olhou pela janela, começou a ler em voz alta. “Bilhar Augusta. A Arte da Boa Mesa. Retificadora Flora.”
“Tudo bem na escola, Antônio?”
“Tudo.”
“Muita lição de casa?”
“Não.”
Tinha, mas não ia fazer. Pra quê? Sentiria saudade também da tia Iara, nem achava tão chato quando ela passava lição. Mas não ia mais fazer.
“Só Botas. Pão Gostoso. Você com Saúde.”
“Ei, tá pensando na morte da bezerra? Chegamos, filho!”
Desceu do carro, mochila pendurada no ombro direito, e subiu direto para o quarto.
A Carminha, que dormia enrolada em cima do baú de brinquedos, se espreguiçou devagar, bunda para cima e patas dianteiras bem esticadas. Fez carinho na cabeça da gata. “O baú vai ser só seu, Carminha.”
Pegou o cacto que ficava na janela e foi até a pia do banheiro regar a terra. Voltou com o vaso ainda pingando. Jogou dentro dele os cinco tatuzinhos que tinha recolhido no pátio da escola e guardado no estojo de lata. Viu Carminha cheirar os bichos, que não se mexeram, e logo perder o interesse.
Em cima da cama, brincou um pouco com o carrinho vermelho, presente do pai. Leu a última história de um gibi. Na frente do espelho da porta do armário, engoliu saliva uma, duas, três vezes, tentando perceber algo diferente.
Desceu para a cozinha. A mãe esquentava vagem refogada no fogão. No forno, torta de sardinha.
“Mãe?”
“Diga, filho.” Ela mexia a panela. “Antônio?”
“Demora?”
“Tá quase, pode ir lavando a mão.”
Estava bom, e tinha morango de sobremesa. Depois, os dois viram novela no sofá da sala. Durante o intervalo, o coração de Antônio bateu forte. O ar faltou, a visão escureceu. Ele encostou a cabeça no ombro da mãe, fechou os olhos e, aos poucos, se acalmou.
Quando a novela acabou, foi escovar os dentes sem a mãe pedir. Deu um beijo de boa noite e foi para a cama, triste.
Acordou com a mãe chamando. Olhou em volta devagar e reconheceu as dobras da cortina amarela, os adesivos de estrelas no teto, o macaco que abraçava fotos dos pais na prateleira perto da janela. Ainda era seu quarto.
Como sempre, se arrastou para o banho, colocou o uniforme que a mãe tinha deixado em cima da cama, tomou leite com Nescau, comeu pão com requeijão, escovou os dentes, pegou a lancheira e a mochila. Saiu de casa preocupado porque não tinha feito a lição de português e ainda não tinha morrido.
Então viu o ponto branco no chão do carro. Será? Sim, era o chiclete. O chiclete que ele comprou escondido da mãe, com o dinheiro que ela deu pro lanche. Um lanche especial, da cantina. O chiclete que ela disse que ele não podia mascar. Porque chiclete faz mal pros dentes e é perigoso. O chiclete que ele comprou mesmo assim. Comprou no recreio, escondeu no bolso e, no meio da aula, tomou coragem para tirar do papel e colocar na boca. Mascou com cuidado, devagar, saboreando o suco de cada mordida. Guardou, já sem gosto, na bochecha direita, na esquerda, debaixo da língua. Aproveitou o segredo até que, dentro do carro, na volta da escola, percebeu que não tinha mais nada na boca. “Engoli.” Ia morrer sufocado. E não podia contar para a mãe que tinha comprado o chiclete.
Agora, ao descer do carro, Antônio sorria. Não morreria mais. A partir de hoje obedeceria a mãe em tudo – não pularia o muro para a casa do Pedro, não daria pedaços do bife para a Carminha nem leria escondido depois que a mãe fechasse a porta do quarto à noite. Só parou de sorrir quando viu a tia Iara e lembrou da lição de português.


Um ponto escuro


Antônio mastiga mexerica devagar. O sumo é azedo como o fim de tarde nublado que amargou meses da sua infância. Estava no sítio, tinha jogado metade da laranja no chão, pra irmã não chupar, quando a bisa veio com a ameaça: acaba de nascer um ponto escuro no seu coração. Se ele quisesse um peito limpo de novo, tinha que fazer algo bom, como pedir desculpas e beijar a irmã. Mas, se de tanta maldade seu coração já estivesse todo manchado, aí não tinha volta: seria podre pra sempre.
“Velha louca.”
O rádio toca alto. Ele gosta do trabalho. De ver os carros na margem enquanto segue outro ritmo. Nem o fedor do rio incomoda. Passa o dia na merda, sim, mas quem não passa?
O problema é depois. Tem medo de carregar o cheiro no corpo, colado na pele.
Cheiro de mexerica também gruda.
Há cinco meses, parou de pegar ônibus. Ficava confuso ao se misturar nos odores de sabonetes, suores, salgadinhos e colônias, então decidiu que iria trabalhar de bicicleta. Nem era tão longe, e se lavaria no próprio banheiro, com calma, e não no vestiário da firma.
Pedala uma hora pra ir e uma pra voltar. Em casa, deixa as botas no chão perto da porta. Tira a roupa ao lado do tanque, lava o macacão e as cuecas, pendura tudo no quintal e anda nu até o chuveiro. Aproveita a espuma do cabelo para limpar o rosto, as orelhas e o pescoço. Depois passa o sabonete em movimentos verticais, com cuidado para cobrir toda a pele, e então se esfrega com uma esponja. Nas mãos, segue as instruções que viu no banheiro do posto de saúde.
Antônio não cozinha, prefere ir ao bar. Cumprimenta todos, mas senta sozinho. Bebe cerveja, come qualquer coisa e espera Ana. Ela aparece logo, vinda do ponto de ônibus. Sempre tem história da viagem. Agora é a do bebê que mordeu forte o peito de uma mulher que amamentava no trem. Ana ri, toma três copos de cerveja e os dois seguem para a casa dele. Ela prefere jantar lá, pão com queijo, e às vezes só toma banho depois de transar.
Ele gosta do cheiro de sexo que fica no quarto e nela. Mas, nesta noite, fareja a podridão do rio no corpo ao lado. O que não percebe no próprio suor, percebe nela. Dia a dia, foi tão contaminado que já está contaminante. Estragado para sempre, como temia que estivesse seu coração quando menino. Ou como o pulmão da bisavó, que fumava e morreu de câncer.
Mesmo assim, ele se levanta e toma banho, seguindo todos os procedimentos de limpeza. Volta para a cama e ainda está acordado quando Ana sai lavada do banheiro. Por baixo do sabonete, o cheiro do rio ainda está nela.
Ele demora a pegar no sono, mas acorda às 5h, antes do despertador, com tempo pra passar um café. Ela já está levantada. Depois de comer e escovar os dentes, os dois saem juntos, se beijam rápido no portão e seguem em sentidos opostos.
Na firma, Antônio bate o ponto, pega o rádio e anda até o píer. O chão ainda está molhado, mas a chuva parou e parece que não vai voltar. Ele imagina como seria escorregar e morrer ali, com o corpo cheio daquela água. Depois pensa que já está mergulhado e vai trabalhar.
Mais tarde, na bicicleta, volta a sentir o rio. Pedala mais rápido, mais rápido, mais rápido, aproveita o vento no rosto e chega em casa sem fôlego. No chuveiro, repete a lavagem três vezes.
Vai para o bar, sem saber se vai encontrar Ana. Deixa o tempo passar, para ver se Ana aparece e para adiar a volta para casa. Apesar de beber mais do que de costume, não está bêbado quando o homem da mesa ao lado, vizinho de rua que ele cumprimenta todos os dias mas com quem nunca conversou, pergunta sobre a ausência de Ana. E, rindo, sobre o rio.
No instante seguinte, o homem da mesa ao lado está morto.
Com a garrafa quebrada na mão, Antônio corre duas quadras. Depois para, porque a água podre não vai mais embora.

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