terça-feira, 28 de junho de 2016

Princípio

“O ‘eu’ constitui privilégio exclusivo daqueles que não vão até o fim de si próprios.”

                                                                                                                                (Emil Cioran)

PRINCÍPIO

Estou encharcada. Tenho água batendo nos joelhos, não tenho idade pra falar de morte. Agora já me falam dela cheios de carinho, voz mansa, talvez ternura. E só me permitem senti-la próxima, premeditá-la, aceitá-la como convém.

A morte abstrata tanto faz, seus olhos distantes como olhos de deus. Só a morte real me interessa. Creio nela, sinto sua vertigem, eu que tanto derrubei minha baba sobre sua imagem e tanto confrontei minha voz com o seu som. Quis que nos tornássemos íntimas, que tirássemos enfim a roupa mentida da felicidade; quis o seu nu, corpo no corpo, palavra na palavra. Então: corpo, vida, verbo e nada.

Tanto pulsei distante na palavra, impasse ao desejo profano de ser cada vez menos. Começava com o dedo em seu relevo mínimo sobre o papel, digital de algum fantasma, voz de alguma voz que já não era minha, criatura desmentindo o criador. Tanto acreditei existir que protelei. Agora não mais a morte abstrata, coisa comum a todos e a ninguém. Morte.

Mas fui jovem e amei, prostituí minha tristeza no amor. Conversávamos muito, tocávamo-nos, e o mais próximo que chegamos de nos compreender (àquilo que meu delírio acreditou ser a compreensão) foi orelha de um encostada na do outro, jeito que encontramos depois de um tempo pra fazer nosso interior reverberar. Amávamos com os dias contados, sabendo o tempo que destrói para se conservar.

Fui jovem: firmei-me na volúpia de ideais móveis, um pouco como o moço que mora na rua, entra numa galeria, caminha por ela resvalando as mãos na parede e assim o mundo é um pouco mais seu. Cumprimenta desconhecidos, forja familiaridade, diz que ama com desdém. Cada um é só de um jeito próprio. Sinto falta do ideal, do resvalar de mãos sobre a parede que não é minha.

O quanto de minha tristeza, prostituída no amor mas sobrevivente, banalizada no mundo, traída no riso, com ares de morta e contudo viva; o quanto dela me foi vedado, espasmo secreto? Não ter chego às mais amplas dimensões da tristeza, desse marco zero e única coisa palpável, foi o meu medo.

Vou em direção à morte satisfeita por ter tido nas lágrimas quentes minha única febre, e nesta palavra que emiti cada vez mais silenciosamente, meu único remédio. Está certo que estive sóbria mas não o fui. Ter escrito tantos poemas, verso sob verso, num falso comedimento... A essa altura, os dias espremidos dura e indiferentemente contra os molares, vejo: vida é assunto de mastigação, verso único, abatedouro contínuo e sem pontuação.
Escolhi o suicídio a dedo e aos 62, anos o bastante para que já não o questionem demais, para que em torno dele não floresça o espetáculo. Ida extraordinária, ida corriqueira, não pede o mau gosto da poeta que ainda houvesse em mim, devota das palavras de melhor safra. Já não me cabe discurso; balbucio. Corte que não vaza, ritual mudo, dança estática do giro completo. Meu suicídio fora de hora assusta e confunde; não se passa dos 30 impunemente. Mas prometo morrer baixinho.

Egon Shchiele

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