sábado, 13 de agosto de 2016

Jorgex

Jorge ali se sentindo perdido em meio ao conforto ortopédico de sua cama super gigante, com a cabeça afundada num profundo travesseiro de penas de chauá, e os membros serpenteados entre o gelado ar de seu quarto e a morna sensação de seus cobertores. Jorge olha o teto, branco e escuro, medita até que o relógio lhe diz para acordar, o dia começou.
Calça sua pantufa e vai até o banheiro mijar, às vezes cagar enquanto lê a edição das onze e quarentacinco da Folha de São Paulo do dia anterior, fazer a barba, escovar os dentes, e ficar se olhando no espelho enquanto pensa no que leu.
            Depois de devidamente purificado, vai até seu quarto e coloca uma berma salmão com uma camiseta azul em gola V, pouco propicia para invernos, mas precisamente agradável para qualquer manhã nas ruas paulistanas. Assim ele parte de casa. Vai de chinelas com haste de couro e sola de pneu, e no caminho, quase pisa em um cocô seco de cachorro, quase inteiramente branco com uma pontinha ainda cremosa, que ele não tira de sua imaginação enquanto pensa no que vai comprar para compor seu desjejum. Para o ovo cozido, já tem em sua despensa; manteiga está no fim, precisa; o pão fresco quente crocante; leite não, iogurte nem pensar; café nunca mais, talvez suco, mas não hoje. Água mesmo. Ele precisa se apressar, acordou seisecinco e entra no trabalho às oitoecinco, demora meia hora de caminhada para chegar na firma sem suar, por isso precisa preparar o desjejum até às sete, tomar um banho e ir embora. Jorge vai decidido pelo sol, tentando ignorar a sombra.
            - Bom dia… ele diz; ou:  – Como vai? – Tudo ótimo e você? Essas mesmas falas ele reproduz a várias pessoas em ordens diferentes, às vezes independentemente, ou só dá um sorriso, e assim cumprimenta seus vizinhos com dentes pastosos e caras pálidas de maquiagens relaxadas mas desculpáveis, a semana é longa até sexta-feira, é o que Jorge pensa depois de julgar a aparência deles na fila do pão.
            Compra pão e manteiga e retorna pra casa. No caminho de volta passa pelo pedaço esbranquiçado de merda de cachorro, ou será humana, ele se pergunta. Ao se aproximar do seu portão, vê uma pomba voando para escapar de um carro que rasga a rua a trinta quilômetros por hora, vendo a parte de trás do pássaro planando, ele se lembra de Maria Clara. Abre o portão e quase quebra a chave na fechadura. É um perigo, pensa e lembra que precisa ficar mais atento. Entra em casa.

Ele precisa arrumar a mesa para o desjejum. Pega talheres, um jogo americano e coloca em sua mesa de dezesseis lugares na sala de jantar. Escolhe um assento rapidamente e vai armando os apetrechos em ordens não aleatórias. Pega o pão da sacola e despeja numa cestinha jeitosinha comprada numa feirinha de artesanato. Vai até a cozinha para pegar o pote de manteiga e ver como a água está. Quando volta, o Diabo está sentado em seu lugar.

Um comentário: