quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Encontro

por Bárbara Zocal e Bruna Meneguetti

Sei nada dessa menina, não. Deve estar pensando violeta ou lilás. Li nessas canoas de carvalho que ela traz na carola. Se espicham tanto quando franze o nariz, de querer engolir meu mundo.
Tinha certeza que seus olhos eram verdes. Verdes como esmeralda, verdes como um mar calmo num dia de sol, verdes como a grama bem molhada. Agora eu os vejo castanhos e fico em pânico. Como posso ter me enganado tanto? Mal a conheço e já acabo de descobrir que a conheço pior do que imaginava. Mas a gente se engana com as coisas invisíveis e não com as visíveis. A menos que se esteja cego em todos os sentidos...  E eu estava cega todos esses dias quando a vi com seus olhos verdes que não estão mais aí. E o mais curioso é que sempre os achei lindos! Pensava: que lindos olhos verdes aquela moça tem. Fiquei refletindo por muitos minutos como eu fui ver olhos verdes no lugar dos seus. Nesse quesito não costumo me enganar, eles são a janela da alma. E é como se eu visse a sacada de um apartamento onde, na verdade, é uma casa. Igualmente bonitas mas tão distintas.
Seus olhos, estranhos são não. Crendeiros. Vi no espelho, anos atrás. Relumbravam os sóis ondulantes no mar, bebiam horizonte. Mas sofrer de cisma dá nisso, menina. Mar que se entra sem ler, Ipupiara pega mesmo.
Distraída estava na popa, ou na proa, sei bem não, aguava os pés de vida. O insolente me rebocou pro fundo, encharcou minhas canoas d’água salgada. Resisti não, mas sabia que o calado do mar não bastava. Por isso digo, menina, as ondulâncias do verde confundem, impossível ancorar na tormenta, até que se aviste o areal baio.
Pensei que poderia ser uma questão espiritual. Seu âmago carrega olhos verdes, sua aura, seu desejo, sua paz, sua luz? Porque vi olhos verdes? Me diga? Qual é essa camada estranha que nos impede de perceber os outros? Sentir suas dores, seus amores, entender que é gente como a gente não importa se são olhos de esmeralda ou chocolate. Você e esse verde que agora procuro insistentemente, como se estivesse mentindo para mim, e justo agora que estamos frente a frente! Como pode fazer isso comigo para me presentear com esses novos olhos? Não me sinto digna do castanho deles. Cultuei o verde como se ele fosse algo irrefutável. Fiz um altar para ele, o cumprimentei, percebi sua presença antes de você chegar. O verde acenou para mim. Mas agora o castanho me chama à realidade. Seu rosto muda, mas é como se a minha máscara caísse ao perceber que o verde não está aí, que ele não vai voltar. Que o verde que vi é outra coisa… É um procurar e não perceber, esperar e não chegar, abraçar sem tocar. E o filme passa na minha cabeça diversas vezes com aquele verde fugindo de mim toda vez que tento procurar mais a fundo.
Dianta não, menina, todo esse foxtrote. Nada verá além dos olhos donde jazem desventuras. Janela alma minha não sorri mais não. Está maculada, é pó da saudade. A casa, o verde, ficou tudo pra trás.
Seu verde me lembra ausência e ele é a materialização da própria. Seu verde é despedida, seu verde é choro e também saudades, seu verde é amor, seu verde é intocável. Quero conhecer a verdade por trás do verde que nunca existiu. Quero que me conte quem é e porque escolheu mentir sobre o verde. Quero que me diga porque acha que o verde a escolheu. Não me leve tão a sério. Eu não sei nada sobre você, apenas que tinha um verde que a seguia e que, um belo dia, parou. Eu também tinha olhos verdes que me seguiam, sabe? Seu verde é o mesmo daquela que amei. Que aconteceu? Não sei bem, mas me lembram seus olhos. Eram verdes até que simplesmente deixaram de ser. O que eu via, então, era apenas o reflexo de meus olhos. Gosto de pensar que seu verde e o meu estão por aí escondidos, esperando o melhor momento para voltar e dizer que, na verdade, esse tempo todo eles estavam juntos em todos os lugares, com todos os verdes do mundo que andam sumindo por aí. Se quer saber, acho que um dia esse verde vai deixar de ser ausência para se transformar em preenchimento. E vamos celebrar o verde de novo. Eu e você.
O que me diz?...
Seus olhos são mesmo verdes!
Ah, é a luz...
Ah, é a sala e as paredes…
Ah, é que vai chover e aí eles ficam mais cheios de barro…
Engraçado. Há um minuto eu poderia jurar que eram castanhos. Como a gente se engana. Como pode existir tanto verde no seu castanho, tanto castanho no seu verde? Já lhe disseram que seus olhos são lindos? Nunca vi nenhum mudar de cor assim. E se quer saber é ótimo poder te conhecer sem ser obrigada a ter certeza sobre qual a cor de seus olhos.
Sou você que me vê. Canoas minhas, abissais, mera lente da vida. Sigo ao socairo, lhana.


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