terça-feira, 23 de agosto de 2016

O ponche que vai ter sal


(trecho da personagem Ana Maria na produção coletiva A Festa)

O ponche das festas na casa da avó. Vermelho, borbulhante, com frutas náufragas entre flocos de espuma. Doce, doce. Porcaria de vinho barato com refrigerante. Para os adultos. Para as crianças, groselha barata com refrigerante. Mas tinha a poncheira. Para os adultos. De cristal com relevo bico de jaca. Até a concha de cristal. Não tenho a receita do ponche da avó nem preciso porque o importante é a poncheira que herdei com o jogo de copos. Fino algum dia mas hoje as taças pequenas demais ou abertas demais para um vinho decente. Melhor encher de mousse de chocolate. Engraçado que quando criança eu imaginava os cristais desenhados o máximo do chique. Já devia ser démodé para a época — assim como sou démodé por falar démodé —, mas eu admirava aquela fragilidade alinhada em fileiras no bufê de imbuia. Intocável para meus dedos curtos de unhas cortadas até o talo. Dedos expostos como a cara esticada pelo rabo de cavalo. O elástico que sempre se embaraçava no cabelo. Não à toa nunca prendi o cabelo da Júlia. No maternal, eu entregava a menina leoa na escola e ao meio-dia recebia de volta uma gata lambida de gel. Recadinho da professora na agenda: corte as unhas da Júlia, por favor. Eu cortava, mas às vezes me entregava ao prazer de ver minha filha despenteada em um caos disforme de cachos e ondas segurar com garras de bicho o copo de cristal cheio de limonada. Nunca quebra nada, a Júlia. Ao contrário de mim. “Você tem uma imensa capacidade para o desastre, Ana Maria.” A avó dizia e era verdade. Eu já sabia na época. Olhava com cobiça para os copos e para as mãos que os faziam balançar no ar. Pensava que um dia entenderia e adentraria aquele mundo de perfumes que coçavam o nariz, tecidos lustrosos, piadas do meu avô, penteados que deixavam as mulheres ainda mais altas e pés como os da dona Zenaide. Como me perturbavam os pés da dona Zenaide. Sempre sentada, com  sapatos pontudos e decotados expondo a risca entre o dedão e o dedo vizinho. Que aflição a distância longa entre o bico do escarpim, onde eu imaginava que acabavam os dedos, e a risca onde eles começavam.  Outro dia comprei um escarpim por causa da dona Zenaide. Lembrei dela quando experimentei o par na loja e vi a fenda entre os dedos aparecer acima do couro preto. Meio centímetro obsceno de dedo exposto no espelho da loja. Calcei para encontrar o Ricardo, mas ele nem reparou, foi logo tirando tudo daquele jeito estabanado dele. Será que o Ricardo vem?
Nas festas da avó, um bando de médicos sem imaginação, e eu achando que estava em O Grande Gatsby — ainda não tinha lido o livro, só conhecia a capa, da prateleira do quarto da mãe da Íris, e pensava que era sobre um gato de olhos chorosos. Mesmo o meu Carnaval de advogada tem convidados menos sensatos.
Tanta fruta para picar. Eu devia ter pedido para a Filomena deixar tudo cortado e separado em tupperware, agora é tarde, essa hora ela já está em casa com os meninos dela e eu estou aqui, de avental e faca na mão. Depois vou ter que correr para tomar banho e passar maquiagem. Checar a Júlia também. Espero que ela não  apronte hoje. Dia de festa, ela não percebe do que se trata mas sempre se agita. Ainda com esse calor... O pior é esse calor. O suor que escorre entre as coxas e desce em fio até a empapar a sola da havaiana. Parece urina, mas refresca. E o Ricardo que faz questão de me ver fazer xixi depois de transar? Coitada da Íris.
Será que os pedaços estão de bom tamanho? Ah, têm que estar. A poncheira é da avó, mas na casa dela quem cortava tudo eram os empregados. Descascavam e picavam laranja sem deixar fiapo de parte branca e amarga. Era como se a fruta tivesse nascido só suco encapsulado em membranas finas imperceptíveis, sem fibras e muito menos sementes para desafiar os dentes. Um trabalho minucioso mais tarde atirado à mistura de vinho doce, guaraná e sei lá mais o quê. Felizmente perdi a receita. Bom, tudo cortado. Vamos lá. Espumante — seco, claro. As frutas: morango, framboesa, amora, laranja (incluindo a parte branca entre os gomos). Cointreau. Sementes de baunilha. Agora  um tico de açúcar… O que foi isso?
— Julia? Julia? Espera que eu já subo aí.
O açúcar. Misturo bem...
— Julia!

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