terça-feira, 23 de agosto de 2016

Pensamentos de Julia


Eu não digo pra mamãe que às vezes me sinto sozinha. Disfarço um pouquinho, espero por mamãe, não sei quanto tempo dura. Acho estranha essa palavra, tempo. Os adultos falam dela sempre. O tempo todo. Eu não sei o que é tempo. Só sei que tenho um quarto lindo só pra mim cheio de coelhos. Adoro coelhos. Tenho os mais diversos coelhos de pelúcia, coelhos nas paredes, nas minhas camisolas, meus pijamas, e chinelos fofinhos com imensas orelhas de...coelhos! Fico sempre com meus queridos coelhos, converso com eles, eles me fazem companhia, enquanto mamãe trabalha. Mamãe queria tanto que eu saísse do quarto, mas não me sinto bem lá fora. As pessoas falam coisas que não compreendo, sempre falam mal dos meus cabelos e unhas compridos, o que não compreendo, eu não compreendo por que eles sempre crescem, e crescem, e crescem, e crescem, e crescem. Eu não entendo por que estou maior, minhas pernas ficaram compridas e amigos da minha mãe já disseram que tenho pernas de bambu, achei graça, mas não gosto de ninguém por perto. Apenas meus coelhos e meus livros de palavras misteriosas e figuras lindas. Sim, eu sinto falta de mamãe, queria estar mais perto dela, estar com ela em todos os cantos da casa, mas não consigo. Ouço sempre: Júlia, Júlia, Júlia. E pronto. É mamãe preocupada comigo. Não sei por que se preocupa tanto. Sou tão quietinha. Gosto de ficar aqui no meu quarto, imersa nos meus sonhos, junto com meus coelhos.


Tenho vários coelhos amigos, Godofredo sempre está junto de mim, Sebastião tem bigodes enormes, você precisa ver, Nino é um coelho miúdo e verde, e há uma coelhinha linda cor de rosa chamada... Fernanda. Não sei por que, gostei desse nome, quando eu for mãe, minha filha vai se chamar Fernanda. Quero ser mãe como minha mãe. Cuidar de uma casa linda como essa, ter muitos coelhos no quintal para Fernanda brincar. Quero ser uma mãe cheia de amor, como às vezes me dizem. “Julia é uma menina cheia de amor”. Eu gosto disso, acho bonito. Não entendo quando querem me falar de aniversário, eu não entendo o que é isso. Me dizem: “Mais um ano se passou, Julia!” E eu não sei o que é ano. Sei que sempre fica claro e escuro, que meu corpo espicha, que meu cabelo e minhas unhas crescem, o que deixa mamãe apavorada, e sei que odeio escuro. Por isso mamãe iluminou todo meu quarto, ele nunca fica escuro, e eu durmo bom assim com todos os meus amigos. Godofredo num braço Sebastião, no outro, Nino fica sempre na estante, e Fernanda prefere ficar na caminha que preparei para ela, bem aqui do lado da minha.

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