terça-feira, 1 de novembro de 2016

A morte do meu pau 1

Seu pau é terminal.
Passei as últimas horas remoendo essas palavras. Jamais esperava ouvi-las tão cedo de manhã, ou talvez tão cedo na vida. Do alto dos meus 28 anos, com saturno retornando com força, carrego comigo um prazo, uma contagem regressiva. Fico imaginando quantas viagens de metrô cabem em 28 anos. Depende do metrô, claro. A linha amarela sempre foi minha favorita, com toda a sua modernidade ensolarada e jovens  super transados que descem na estação Fradique Coutinho para exercerem seus designs. Estou há pelo menos 1 hora nesse trajeto que deve durar no máximo 20 minutos, indo e voltando, hora sentido Luz, hora sentido Butantã.
Terminal Butantã. Solicitamos a todos que desembarquem nesta estação.
Eu não desembarco. Gosto do chacoalhar dos vagões, do ir e vir de pessoas sentando e levantando, lendo livros em pé, ou fazendo anotações trêmulas, ou comendo um sanduíche fedido, ou escutando axé no último volume numa alegria que não consigo compartilhar. Lembro a última vez que me permiti estar suspenso no tempo e no espaço, nunca desembarcando, como quem adia sem sucesso um fato inevitável. Era sábado e fazia frio. Tempo de festa junina. Eu voltava de um humilde social com os amigos de faculdade. Tinha bebido muita catuaba e sentia os efeitos dela em mim. Diferente de hoje, estava acompanhado. De todos que se reuniram naquele espaço desagradável de food trucks e bigodes lustrosos, sobramos nós dois, eu e ela, ela e eu. Ela também se sentia levemente alcoolizada. Aquele era o momento que eu esperava há muito tempo. Estávamos sozinhos, nossos sentidos entorpecidos pelo licor da fruta amazônica, tão ruim mas tão bom, sentados lado a lado, falando bobagens sob a luz fria do metrô. Eu sabia que o silêncio viria, e ele veio. Nos encaramos por alguns segundos e não contemos o riso. Voltamos a nos encarar e voltamos a rir. Não precisávamos dizer nada, mas ela insistiu que eu explicasse. Eu quis dizer que sempre achei que a gente deveria transar. Tínhamos aquele tipo de tensão sexual não resolvida, aquele coito interrompido de olhares que imploram o toque, mas que nunca se satisfizeram por efeito dos caminhos inesperados do destino. Acabamos com outras pessoas, mas agora estávamos sozinhos. Tentei explicar como pude. Tenho certeza de que atropelei as palavras, sempre me atrapalho com eufemismos, e mesmo a catuaba não inibe totalmente a minha timidez. Mas ela entendeu bem, deu pra ver no seu sorriso. Deu pra ver ainda mais na mistura de desejo e desapontamento que tomou seu rosto em seguida. Ela me explicou que não podia. Não podíamos. Seria errado. Não para nós, para outras pessoas. Eu costumo ficar egoísta quando bebo, e boa parte dos meus erros de cálculo vem dessa falha de caráter, mas ela era uma pessoa íntegra, dessas que não desapontam os amigos. Aquilo seria uma espécie de traição que se estende no tempo, explicou ela. É como se a gente ficar agora justificasse todo o ciúme que antecedeu esse ponto, explicou ela. Fazia muito sentido, mas era difícil ficar satisfeito com isso. Tinha de existir um jeito, um loophole que nos liberasse da culpa. Foi isso que procuramos nas três ou quatro viagens que fizemos na linha amarela aquele dia. Na verdade, foi isso que eu procurei. Ela já havia tomado sua decisão há muito tempo, e depois me senti mal por ter insistido.
O que ela diria se eu ligasse agora dizendo que meu pau ia morrer? Será que essas coisas tem prazo de validade?
Abro uma foto sua no celular e fico encarando o passado que perdi. É um sentimento esquisito remexer nas memórias daquilo que poderia ter sido. Fiz as minhas escolhas e tudo que se seguiu foi consequência delas. Não era pra ser, ela me disse. E se fosse, não teria sido bom, eu tinha outra cabeça na época, ela me disse. Eu acreditei e ainda acredito. Ela é muito mais sensata que eu. Agora imagino como ela receberia a notícia do médico, se teríamos a mesma reação, se reagiria com humor ou com extrema tristeza.
Eu reagi com os dois.
Nunca consegui me sentir à vontade numa clínica. Há algo naquela iluminação, nas paredes brancas ou beges, nas secretárias robóticas, nas revistas fúteis ou na água ultrafiltrada. Não consigo saber exatamente o que é essa coisa que mexe com meu corpo e o desloca de si mesmo, um tremor subatômico, um deja vu atemporal. Nunca precisaram chamar meu nome mais de uma vez. O médico que me atendeu era muito mais velho que eu. Tinha os cabelos bem grisalhos e uma barba tão perfeitamente aparada que suspeito ter sido feita a laser. Trouxe uma série de papéis e lâminas debaixo do braço e pediu que eu ficasse de pé no canto da sala, ao lado da maca. Não disse nada quando desabotoei a calça e abaixei as cuecas. Eu sabia o porquê de estar ali e ele também. Colocou as luvas com um som elástico amedrontador, pegou o estetoscópio e pediu que eu respirasse bem fundo. Repeti o processo algumas vezes, com ele espalhando o frio estetoscopial pelo meu corpo semi nu da cintura para baixo. Aquele gelado metálico fez meu pau mexer um pouquinho, reagindo ao toque, mas só um verdadeiro especialista teria percebido. Se ele viu, não disse nada. Com uma das mãos emborrachadas massageou minhas bolas, manuseando o corpo do pênis com a outra, numa espécie de masturbação intrincada e profissional. Naquele momento eu mal me sentia presente, toda a atenção do médico reservada ao meu genital e apenas a ele. Tentei pensar em coisas felizes. No churros barato perto de casa. No sabre de luz maneiro do novo Star Wars. Na réplica do martelo do Thor que eu vi numa loja de Pinheiros. Mas os pensamentos sempre voltavam à cara de preocupação que todos os profissionais exibiam ao verem meus exames.
Hum.
Foi a primeira coisa que o doutor disse ao meu pau. Eles ainda não se conheciam. Meu antigo urologista havia se mudado para Diadema e, na correria do dia-a-dia, era impossível continuar me consultando com ele. Resolvi levar todos os exames, resultados, receitas e o caralho a quatro a esse doutor numa clínica na Liberdade, um dos melhores do ramo segundo a internet, com um Lattes tão extenso que daria um livro. Era a coisa certa a se fazer. Um olhar novo sobre o caso traria o acalento que eu precisava. Enquanto eu refletia, senti um novo movimento no meu membro já acostumado com o frio da sala ar-condicionada. Não um movimento alegre ou de surpresa, não um movimento de excitação e descoberta. Era quase um suspiro, um espasmo involuntário de um corpo moribundo.
Seu pau é terminal.
Próxima estação, Terminal Luz. Solicitamos a todos que desembarquem nesta estação.
Eu não desembarco. No metrô, estou na consulta. Na consulta, estou no metrô. Dois momentos no tempo conectados por uma linha de pensamento. Tento me concentrar.
Terminal?
Sinto dizer que seu caso é grave. Seu aparelho reprodutor, também conhecido como pênis, tem somente alguns dias de vida. Eu posso te receitar alguns medicamentos que aliviarão a dor e talvez até garantam uma sobrevida ao indivíduo, mas fato é que ele não passa dessa semana.
Terminal Luz?
Solto um riso nervoso, desesperado, triste, descontentado. Estou preso num loop. Enquanto estou na consulta, estou no metrô. E no metrô, estou no metrô. Anos atrás. E no metrô anos atrás estou pensando com meu pau, sem saber que seu tempo é relativamente curto, como um pavio inútil. Todos nós vamos morrer um dia, lembro de argumentar. Não sei se vale a pena a gente desperdiçar uma coisa boa porque alguém pode sair magoado. Ela disse que valia. É muito difícil se colocar no lugar do outro depois de algumas doses de catuaba. Pelo menos é para mim.
Descarto a fotografia e guardo o celular. Outras memórias haviam começado a sair pela tela e não quero encará-las de frente, não agora. Uma vida diferente ameaça passar pelo fundo das minhas pálpebras, então procuro mantê-las arregaladas.
É até difícil para mim dizer que esgotamos nossas possibilidades. Em todos esses anos de urologia, jamais encontrei caso como o do senhor. A literatura sempre teorizou como possível, existem até alguns estudos sobre o assunto, mas é realmente a primeira vez que encontramos um exemplar nessas condições. Inclusive, se o senhor puder assinar uns papeis, eu gostaria de conduzir uns…
Não presto atenção em suas palavras. Estou tentando formular uma pergunta que ainda não sei exatamente qual é. Atrás do doutor há uma cruz de madeira, reluzente, envernizada, pregada à parede de forma milimetricamente calculada para ser admirada de qualquer lugar da sala. Foi a primeira coisa que reparei quando entrei. É a última coisa que reparo antes de sair.
Não lembro se peguei meus documentos ou a receita na clínica. O zíper fechado da mochila indica que guardei alguma coisa, mas não quero checar agora e talvez ter que voltar. Também não consigo pensar em ir para casa. Trabalhar, jamais. O tempo não para no trem apenas porque os relógios não deixam. Os signos denunciam o dia. Você não pode escapar do calendário. Não em São Paulo.
Me pergunto quantas viagens de metrô cabem em 28 anos, mas essa pergunta é repetida. É como se uma cabeça falhasse em solidariedade a outra.
Quando finalmente visto as calças, o doutor dá uma palmadinha no meu ombro. Percebo em sua expressão que ele não costuma dar notícias tão ruins. Sua tentativa de me consolar com o rosto lembra uma máscara de papel machê retorcida.
De alguma forma vou parar na Sé. Não lembro de ter descido em alguma estação ou ter tomado outro trem, mas me encontro sentado no banco em frente às catracas. Ao meu redor acontecem transações comerciais que não consigo entender a essa distância. Do meio da multidão, um senhor grita “pega, pega! olha a faca!” enquanto outro corre carregando uma mochila desajeitadamente. Ninguém parece entender a cena, então ninguém faz nada. Saí de casa despreparado para más notícias e o frio. Abraço os joelhos e fecho os olhos.
Sai logo daqui ou eu enfio esse cabo de vassoura no seu cu, seu filho da puta.
Abro os olhos assustado, já tremendo, com a voz próxima ao meu ouvido esquerdo. Dois seguranças do metrô. Mas eles não falam comigo. Ameaçam um mendigo que carrega uns cobertores e se sentou ao meu lado enquanto eu não via. Finalmente começo a chorar. Um dos seguranças me olha.
Tá encarando o quê? Perdeu alguma coisa?
Ele deve ter a minha altura mas o triplo da massa corporal. O seu companheiro, o Segurança Gato que já foi famoso na internet, cochicha algo em seu ouvido. Os dois saem, não sem antes me encararem com nojo nas ventas.
Minhas lágrimas são geladas e têm um gosto desagradável. Decido voltar para casa e chorar em segurança. Assim que me levanto sou abordado por uma senhora de idade, os longos cabelos compridos presos num rabo de cavalo, o vestido rosa-desbotado, carregando um carrinho de feira cheio de sacos pretos logo atrás de si.
O que aconteceu, meu filho? Você está bem?
Eu… meu pau vai morrer, senhora. Meu pau tá morrendo.
Poxa… meus pêsames.
Ela me abraça e eu preciso entortar a coluna para chorar em seus ombros.
Às vezes a gente perde o que ama, meu filho. Mas o tempo cura as feridas da perda.
Ela abre a carteira e me mostra uma foto 3x4 de um rapaz. Não sei dizer se é seu marido quando jovem ou seu filho quando moço. Não me sinto confortável perguntando. Deixo que me abrace outra vez. Ao chegar em casa, encontro a foto 3x4 entre as coisas no meu bolso. O maço de cigarros. O molho de chaves. A fita isolante. E a foto. Na parte de trás está escrito “MARCIO MORRONI” e uma data de outubro ininteligível. Me sinto mal por ter ficado com ela.
Tomo um banho quente e me deito nu, ainda com os cabelos molhados. Me enrolo no edredom e ignoro meu pau, que coça pedindo carinho. Algo me parece muito engraçado. Acho que é toda essa ideia do absurda do meu pau morrer. Só pode ser uma piada de mau gosto do doutor. Os caras que fizeram a tomografia certamente já tinham sacado tudo, por isso faziam aquela cara assombrada de quem encara um fantasma. A minha cardiologista também, outra sacana. Certamente viu as receitas e deduziu a brincadeira toda.
Onde já se viu isso de pau morrer.

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