sábado, 30 de abril de 2016

Apego

Tenho dito pouco
Escrito ainda menos
Pois o medo é tão grande
Da palavra sair
E eu perder, hoje
O que já perdi antes

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Furos


No primeiro teto branco
não havia sequer bocal
e nas paredes também brancas
qualquer furo era uma dispendiosa contravenção.
O segundo teto branco
tinha paredes salmão e janelas marrons.
Certamente condenável para o feng shui,
elas jorravam calor, que rima com dor
e com as janelas pretas antirruído
que pelo menor sentido,
ao serem fechadas na vertical,
asseguravam o silêncio.
O fora do dentro
e o dentro do fora.
Nada se ouvia
nem paredes,
nem dores,
nem medos,
nem corações,
nem.
O terceiro teto branco
harmonizava com os tacos de madeira lustrosos do chão.
Nele o vento corria,
respirávamos a ráfia, a espada de São Jorge e eu.
Respiramos tanto dentro dele
que o próprio dragão me convidou a voar
segurando em seu rabo.
Viver sob o teto não fez mais sentido,
pois a melhor vista da lua, me ensinou o dragão,
é vista da rua.
Mais tetos brancos vieram.
Dois – os dos outros.
Num deles, o teto,
o carpete cinza,
as redes das
janelas e os
velhos
armá-
rios
pla-
ne-
já-
dos
su
fo
cavam.
Os seres mais vivos dali eram os cupins.
Tinham alma.
Noutro, o teto e os lustres art déco
Harmonizavam com
os tacos,
o futon vermelho,
o abajur de chão rococó e
o divã de terciopelo rosa-chá-verde-musgo-marrom-poeira
Tudo muito admirável!
Porém não havia detergente neutro e sabão de coco
que limpasse toda a poeira
dos corações imundos e sovinas que ali habitavam.
Uma porta-de-madeira-maciça-anos-50-arrombada
materializou o adeus.
Nesse teto, nada mais-valia que os objetos.
As rudezas tornaram tudo desconfiança.
“Um teto pra chamar de seu”.
Olho pra cima
e vejo um teto branco.
Um novo teto.
O primeiro passo foi cobrir as paredes salmão,
que pode ser karma-n ou peixe.
Por mares nunca dantes navegados,
vejo tetos brancos, janelas brancas e paredes brancas.
Nelas são projetados feixes de luz verde.
Me descobri
silêncio                      
silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio            silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio            silêncio            silêncio        silêncio           
“Uma porta fechada é uma porta fechada”.
Penumbra, mirra, fumaça e memórias.
Nas paredes há penas, peles, papeis,
madeira e sisal.
Os furos que faço no agora.

Quando você fala

Quando você fala
o pulso para?
O meu bate mais forte

Fecho os olhos

Na mão o pescoço
ou braço
bicho
cobra Eu
tato
escama

Você
vibração pura
música

Entregue
Entregue-se

Vem

Veneno
O riso como água
escorre vivo
na garganta

Sem medo
Sem meio

Dedos
em mim

Frios
Depois
quentes

Queimam
Misturam
Brotam

Vem

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ventríloquo


Em minhas mãos há um boneco
Minha voz é dele e a dele é minha
Já não sei mais quem sou eu
Me empresta algum sentido teu?
Põe sua mão aqui ó
Na minha garganta
No meu ritmo
No meu mantra
Põe seu ouvido também
No meu ver
No meu vem
No meu (v)entre
Voz cê sou eu?
Voz cê tem o que dizer?
Voz cê grita?
Voz cê dança?
Voz cê sensura?
Voz cê mente?
Voz cê quem é?
Voz cê sussurra?
Voz cê me tem?
Voz
Sê!

Eu e ela


Eu e ela

Ela tá na minha mão
nós dançamos juntinhos
e nos beijamos
eu e minha Heineken

Descendo a rua de mãos dadas
eu e minha Heineken
ela espuma sem razão nenhuma
fica lá, cheia até a boca
eu pergunto O que é?
Você sabe que você pode me contar qualquer coisa
ela não diz nada
vira os olhos
fingindo que está cheia de mim
olha os carros que passam
mas não resiste quando eu a puxo pela cintura
Eu te amo, pô

Subo o elevador
a sacola cheia de Heinekens geladinhas
eu a abraço e sussurro

Ok, talvez eu esteja meio bêbado

Chego ao supermercado
ela já me olha com aquela cara de emburrada
Você tava bebendo cerveja
não tava?
Tava tomando uma kaiser
mas pensando em você o tempo todo
Você é foda, Henrique
ela se faz de difícil
espuma
mas eu a deixo esfriar a cabeça
pensar um pouquinho
e no final das contas ela sabe
que eu gosto dela até mesmo quente

Chegamos escondidinhos
eu e minha Heineken
ninguém pode saber
mas não é por vergonha
escondo da minha mãe
da minha mulher
da minha namorada
da minha amante
do mendigo que quer um gole
eles não entendem o que rola entre nós

Na verdade o mendigo entende

Mulher é foda, né?

Eu digo Heineken
quer dizer
eu escrevo Heineken
assim, com maiúscula
porque você é diferente das outras
e talvez porque seja a forma mais correta de se referir a uma marca

Ok, é isso mesmo

Mas você é especial

Tem gente!




Tem gente!
Pode bater à vontade, está trancado.
Tem gente, está ocupado!
Por que insiste em bater na porta da minha solidão?
Não vê que aqui está cheio, transbordando?
Tem bicho, tem planta, tem cheiros, tormentos.
O ator, a sogra, a mãe, o filho, o padre, o irmão.
Estão todos aqui dentro.
Já falei, tem gente!
Ainda falta lugar para os livros
Inúteis, concordo… mas ocupam o pensamento.
Não vai entrar, chega! Já tenho silêncio demais no momento.

Na linguagem do amor



Falo como se buscasse aprender outro idioma em língua bem viva, sem volteios nem intenções escondidas, falo agora com a pressa de quem foge da morte, da sorte, do deixe estar, por assim dizer, do vir a ser. Estalo a boca articulando suave no arrepio aconchegante de um sol de manhã gelada para dizer que ontem sorri com um senhor qualquer e que ainda não desconfiei de ninguém por hoje, que me olhei e vi algum brilho de algum tempo que me lembrou quem eu sou e o que não quero ser.
Me acompanha agora, enquanto falo, esse chá de camomila que, enquanto tomo, toma a forma daquele pequeno travesseirozinho bordado cheio de abraços que coletei pela vida.
Essa linguagem que falo e persigo um tanto exausta, um tanto nova, um tanto medo, um tanto raiva, um tanto de tanto mais um tanto de coisa que nem sei, é da mesma essência das poesias que rabisquei nas paredes de um dos quartos que tive.
Mas por que me esqueceria dessa língua que um dia inventei para sobreviver e que agora parece criptografia, enigma, nó na garganta?

O que ninguém me disse, talvez porque já tenham esquecido também, é que depois das palavras infantis e da cartilha, eu ainda teria que reaprender a falar por tantas vezes mais. 

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há pombas em debandada
e os edifícios mais sólidos permanecem graves
a hemorragia ainda jorra

onde está a raiz do mal?
onde está a faca necessária?

efeitos podem atuar sobre as causas?

as pombas alçam voo
e do inferno é içada a natureza humana
suas razões suas pátrias
uma a uma
erguidas como ouro

desmancham-se aos seus pés
como seguidores a compartilhar
do mesmo ranço

há bandeiras e animais
marcha e coro
a toada permanece

as pombas não olham para trás
deixam no chão os intrépidos
os corados de luto e raiva

o que eles bradam o vento leva e não permite
que haja resposta

a moeda de troca
usurpada
não é mais tão densa
é membro sem tronco e peso

a rosa dos ventos aponta para mortes lentas
o isolamento é dos sentidos
mas há muitos espelhos ainda

já foram ao inferno
agora do céu arrancam um anjo-arrastado
irão depená-lo
cultuarão sua santidade
clamarão a trombeta e o anúncio do apocalipse
que se revelem as trevas exteriores!
dentes já rangem e há choro secos e inundados também

a desmedida do pedido
as engrenagens expostas
culto
          culto
                    culto
há resistentes bocejos
alguns cuspes estão guardados
há frestas suficientes a serem preenchidas
com tantas palavras há de ter aquelas
que prestem bons serviços
preencham genealogias
sejam quais forem

as pombas permanecem em voo
não anseiam terras ramos ou mãos erguidas
rumam a um voo eterno
a debandada é de fim
quem possui asas de fato
sinta!

as pombas voaram
e não deixaram rastos
os impossíveis de voo permanecem telúricos

as pombas
apenas anunciaram a aurora negra

as pombas em debandada
...partem sem volta

quarta-feira, 27 de abril de 2016





eu tenho amado o silêncio
e suas horas mais constantes
tenho amado sua realidade
asséptica, plástica como um abstrato
no absurdo. os longínquos ruídos
na triste evidência da sala escura
que desconfigura os objetos sob o manto
negro, o manto pacífico da brisa
que corre demorada pela fresta.
a fresta do pouco de memória
que me ocorre. estou olhando
para dentro, dentro do ócio
dentro do óbvio, dentro da angústia,
dentro da calada, dentro do nada.
uma rapsódia pelos sentimentos mais
imprecisos. A geladeira muda.
o vaso mudo. o televisor mudo.
o jornal mudo. as canetas mudas.
tudo é mudo no desmundo
da quietude. É como
se eu visse, a milhares
de anos-luz, o meu íntimo.
que, tímido, emite uma
seca e imperceptível batida.

Sem título


Suas vestes rasgadas, sujas, arrastando no chão. Deslizava sobre o deserto, a terra rachada, o sol escaldante. Seus pés machucados - embebidos tanto pelo seu quanto pelo sangue dos outros - latejavam cansados.

Os corpos espalhados, recém-mutilados, seriam, daqui a pouco, símbolo de vitória para outras nações, distantes e ricas, onde a terra é frutífera e o sol, agradável. E logo mais os "heróis" de guerra serão empilhados e seus corpos, sem identificação, incinerados.

Ele, cabelos engrenhados, cheios do pó, que flutuava em todo lugar, andava lentamente, rondando os cadáveres, como um urubu. Apalpava aos poucos, sentindo os bolsos, as jaquetas ensangüentadas, à procura de algo de valor. Medalhas, relógios, óculos, sapatos... Às vezes achava algo inútil, como cartas de amor, livros velhos ou fotografias. Levava para a filha, que gostava de sonhar. 

Lodo



Quando acordei, nasci outra. Como se o choro clichê sob o chuveiro tivesse apagado traços que, durante a madrugada, algum sacana sem talento refez. Ou como se as horas de sono tivessem desmantelado adornos. Meu olhar de ressaca escondia um buraco sem oceano. As sobrancelhas cansaram de simular desafios. Os dentes rangidos perderam o corte.
Sobrou uma versão embotada, ou enxuta, de mim. Menor e mais pesada. O que não significa densa. Caminha vacilante. Os olhares que antes me atiçavam agora querem me estraçalhar. Rasgariam minha carne barata com o pouco caso da adolescente que masca chiclete diante de mim no assento do trem. Eu poderia desistir. Assumir a derrota. Ou construir um mundo sobre este mundo. Ruas, casas, parques e comércios que soterrassem a arquitetura duvidosa, os terrenos baldios, as bugigangas plásticas das lojas de descontos, os moinhos abandonados, as lanchonetes fedendo a gordura velha. Mas o lodo continuaria ali. Um dia, brotaria nos gramados, contaminaria a água de beber, retornaria pelos encanamentos e, para horror das donas-de-casa, empestearia os banheiros perfumados por sachês. 
Não quero tanto ódio. Por isso afundo mais. Ele me chama e eu vou. Bato à porta, espero. Dos escrotos, o menor. Mostro os dentes quando ele abre.

domingo, 24 de abril de 2016

Experimente

Éramos duas com as mãos correndo aos corpos. Éramos duas redescobrindo a biologia simples. E o que observávamos de nossos peitos e gargantas formou-se convite que faço agora: falar com a mão do outro no pescoço. Sentir a pulsação do outro no peito. Respirar enquanto o outro aspira pelas narinas.

Para tanto é necessário ter tato, ter o outro e ter o tempo mínimo para ter tato no outro. Sendo o último reconhecidamente o mais difícil, digo desde já os resultados desse experimento: a pulsação, que sinto em nós, sempre parece mais forte em mim. Já a vibração no pescoço enquanto o outro fala é mais forte neste do que comigo. E a respiração iguala-se diante do toque.

Mas o que há de tão importante nessas regras, que inibem de tão próximas que estiveram e de tão ignoradas que foram por nós? Pelo tato, o outro e o tempo, a observação escassa que concluí foi a de que ouvimos mais a nossa pulsação porque nos importa mais o próprio coração. Já a tremulação na garganta da voz sempre parece maior para calarmos mais diante de diferente voz. E a respiração? Lembrete de que, mesmo sem o tato, o tempo e o outro, estamos todos igualmente mortos-vivos até segunda ordem.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

QUATRO ESTAÇÕES



QUATRO ESTAÇÕES

                        (para Lucas Bronzatto)*

mais um verão se apaga
na iminência de um outono
negro

sombras de retrocesso
se confundem
em danças organizadas
disfarçadas
marcadas
em celebração

outono
negro

já li nos livros
vi meu pai chorando
certa noite incrédula
vi medo
vi paredes em ruínas
pichadas

no país de sabores e cores
aguardo
redesenhando minha esperança
no desfecho
das questões de polos

polos desejosos por grana
polos desejosos por sol

que posso diante
de exceções
de poderes distintos
instituídos
que salvaguardam
direitos podres?

no inverno do meu ser
não forçarei meu grito
ele é acanhado, é fraco
jazo perplexo na apatia
mas faço destes versos
rebeldia

que a força dos meus versos
nos inquietos caminhos
que transito
possam se transformar
num grito
  
que uma nova
primavera
de Praga
renasça

que se redesenhem
rumos
planos
caminhos

que o verão resista
insista



Ivan Leite – 18.03.2016


* Lucas Bronzatto - Poeta - Blog:http://www.outroscantostortos.blogspot.com.br/
* Lucas Bronzatto falando de poesia numa entrevista para o poeta Tarso de Melo:
https://tarsodemelo.wordpress.com/2015/04/24/sobre-poesia-ainda-lucas-bronzatto/


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