sexta-feira, 27 de maio de 2016



entre senos e cossenos,

professor de geometria alcoólatra suarento - eco do livro Gonçalo Tavares
tanto o mestre quanto aluna
nadávamos na areia quente, quase deserto
tropecei, forcei, topei nas análises contábeis
catar feijão, encontrar preciosidade
consiste  buscar com lentes detetivescas, questionamentos lógicos
pare passo, rastros poucos visíveis, sem explicação ao analista ouriço eriçado
imagem pontual, rigoroso,  intuito engordar caixa empresarial?
ledo engodo. exigência inicial do bem estar numérico, start biulding (começar a construir)
operário de escritório desafiado, satisfeito como Sherlock Holmes ao fechar o raciocínio perfeito
lavar, coar, raspar, identificar pequenas, significativas pedras, resultado de ourives = básico, braçal, manual, mensal à anual.
Manuel da padaria a colher resultado no caixa? Não! humilde adorador pitagoriano na beleza inquestionável dos números
o exato retratado - sem fuga.
sonhos mentais fervilhantes, incontáveis torturas cerebrais
tudo. tudo para identificar  o erro culpado.
Contabilidade é o esqueleto de intermediação entre acionistas e o Estado
Auditagem, utilitário no ofício, início: catar, separar feijões esquecidos, disfarçados,
provas nem sempre alvíssaras
Caixa dois não tramita, nem transita em trama, na cabeça do analista patriota.
baixo clero,nunca!
negou, não assumiu=descontratado, demitido, you´re fired, furacão!
Revoltado, o romântico era poeta numérico devastado

quinta-feira, 26 de maio de 2016

FRADINHO É O CARALHO, MEU NOME AGORA É BRANQUINHO PORRA!



grafismo


meu corpo manuscrito
tinteiro de sangue

com agulha
e pigmentos lacrimosos de ontem
fazer cicatriz de aflições
e nomear um suspiro

escrever é tatuar
dar forma à saudade 

Uma bota

O que uma
bota
a um andar 
abotoado
aos desvios
do chão?
Se um pen
drive
passos
me cadarço
ao te abraçar
descalça
Não mais
meias
entre nós
calçadas
ruas
ou vielas
Você me mato
eu te selva
e a gente
terra
nos trilhos
do metrô

Escrevo como cozinho


Escrevo como cozinho

Acrescento palavras ao verso
como alimentos ao caldeirão
provo, mastigo, rumino, peço
que nenhum tempero seja vão

Em fogo baixo, a palavra amansa
desata tramas, pousa macia
em fogo alto, a palavra avança
acende chamas, voa na via

E se ouso não lhes ser zeloso
a vingança é certa, sei bem
Engasgado e não saboroso

O poema e o almoço vêm
Mas se em ambos for cuidadoso
sempre mato a fome de alguém








quarta-feira, 25 de maio de 2016

Flor em verso

Verso livre:

Escrever é como cuidar do jardim
O que desabrocha depende
Da terra, se está boa ou ruim
Da mão, passarinho, duende

Tem dias que se planta alfinete
Pra espetar a si e todo danado
Noutros se planta chiclete
Pra colher mastigado

Encharcado, o verso se mata em cautela
Sol demais faz evaporar aquarela
Em dias é jovem e gasta a canela
Noutros é velho e só o vê da janela

Se cavar a liberdade da planta
Vezes de retalhos floresce flanela
Ou pode a regra que a acoberta ser manta
Na metrificação que vem em caravela

Mas a erva daninha da escrita
Carpinteiro, bicho do mato
É a rima que sempre aceita
Espinho singelo no vaso chato

Cava tanto para não a ter
Mas tem lá a sua função
Que é arranhar para ver
Quão trabalhosa é tua paixão

Sim, escrever é cuidar do jardim
Adubar até doer o rim
Deixar livre pra contemplação
Até acabar a plantação

Mas como colheu Mario Quintana O segredo é cuidar tão bem Que traga borboletas à paisana Em forma de editoras também


Metrificado

Escrever é cuidar do seu jardim
O que desabrochar muito depende
Da terra, se estará boa ou ruim
Da mão, do passarinho ou do duende

Tem dias que se planta alfinete
Pra espetar a si e todo danado
Em outros se planta ainda chiclete
Que é para poder colher mastigado

Se ela encharcar, se suicida em cautela
Com sol demais, evapora aquarela
Em dias é jovem, gasta a canela
Noutros é velho e só o vê da janela

Porém a erva daninha da escrita
Carpinteiro, velho bicho do mato
É essa rima que você sempre aceita
Espinho singelo no vaso chato

Sim, escrever é cuidar do jardim
Adubar até doer o seu rim
Deixar livre para contemplação
Até acabar com toda plantação

terça-feira, 24 de maio de 2016

Repente de labareda

Gosto de palavra
que queima 
faz fogueira
traz gente em volta
que é meio
e não começo ou fim
que ilumina
desata nó

que estala
feito repente de labareda
estrala ossos
frita miolos
rompe cordas
explode no peito
que produz gastura
e tritura em miúdos
a tua loucura
aquece vermelho
concentra amarelo
que usa
e resulta
em massa cinzenta
de carne
e linguagem.

Beijo

Em tua 
nascente
sou foz 
de água 
ardente
espalha 
tuas quedas
pela minha 
boca.

Carne

Eram tantas as dores no peito
que resolvi tirar o coração
e deixar uma pedra
em seu lugar
vasculhei florestas
perdi-me por cidades
por entre dedos e fantasias
mas uma noite fria
seguida por outra de calor
me fez esfregar o coração nos sentidos
e foi para amar-te com a carne
que o devorei

domingo, 22 de maio de 2016

Ossário

Escrevo como quem cava
Cova no cemitério que sou
Quebra a grama, abre a terra
Lavra o vão úmido de chão

Às vezes, metal na laje
Dói sonoro e sem razão
Martela, martela, martela
Por medo do oculto
que há ou não

Passos atrás
Mãos no concreto
Levanta a placa
Olha em segredo

Ossos
Baratas
Anel no dedo

O espanto da vida que me deixou

sexta-feira, 20 de maio de 2016

THE HOURS COMPOSITION: STILL LIFE.

CORPO EM DISCUSSÃO


Corpo bizarro forma geografia de distribuição de sortilégio.
Estranhos envelopes de carnes esfoliadas.
Espíritos residem nas suas sombras e abduzem a canais subterrâneos, sejam pela explosão ou o rasgar da pele.
No corpo nasce a palavra.
A linguagem treme de desejo e medo – fruição, gozo.
Meu corpo é a do outro, sobretudo por amar outro ser corpo.

Corpo de arroz do camponês conduz a alma.
Conduz a palavra do ancestral, pede permissão à árvore anciã,
flores amadurecidas pelo verão.
Espantalho aposentado.
Capta o desejo do pássaro: corvo voluntariamente corvo conduz a coragem da escrita.
Não há vácuo no pensamento presente, ausente no tempo.
Corpo sem pecado, desejo de romper a vergonha da culpa em perpétua vigília. Giros, giros, voltas sem sucesso, jogo tudo pro alto.

Tênue sustenido trava na garganta,
corpo colecionador de imagens.
Ideograma é corpo, homenagem aos deuses. Vale mais que a própria vida. Escrita divina nos cascos da tartaruga.
Butoh – corpo nu e cru. Dança do fracasso, dor, compaixão, irreverência e perdão.
Minha alma grotesca não espelha em meu rosto.
Corpo pede descanso, humilde reconhece o fardo.

O corpo é Arte, Aventura e Criação. Não se rende, entre o Real e o Fantástico.
Texto – corpo - performáticos.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Olho pra mim e vejo você

Nos meus olhos profundos, na cara arredondada, nos meus cabelos que você insiste que são seus.

E, com o passar do tempo, vou parecer cada vez mais com você.
Não vou?

Vejo nas fotografias, nas gravações da minha voz, no meu jeito de falar. Cada vez mais eu sou você.

Meus pés pequenos, minhas pernas gordas. Nunca conseguirei me dissociar.

Meu nariz, esse ossoinho hebreu, que teimo em desfarçar, que eu sempre odiei.


Pelo menos meu nariz
é completamente diferente de você.

Voz

Quero que me ouçam 
           dos confins da terra
           dos abismos mais profundos
           do fundo do oceano

Quero que me ouçam 
           por baixo das portas
           por trás das paredes
           de dentro dos armários

Quero que me ouçam
           do outro lado do telefone
           do outro lado da tela
           do outro lado do espelho

Quero que me ouçam 
           olhando na minha cara

E saibam

Que nunca vão me calar.

uma prosa

carregava no bolso um grande               de silêncio.
                                                         buraco
media aproximadamente quatro por quatro.
nele cabiam quase 52 animais se dispostos como num vagão de trem às 18:32 de quinta,
mas somente fora do bolso.

dentro do bolso ocupava menos espaço
que uma nota fiscal amassada.

                   em verdade era quase um buraco
                                                                  de nada.
não fosse o silêncio que espalhava.

o silêncio pode se usado:
                                        para o bem
                                     e para o mal.
usava o silêncio para o bem.
                           e para o mal.
o que é quase
                         asfalto:
                                      uma grande inutilidade cinza.

pensa um benefício que o asfalto trouxe à sua vida.
não vale por extensão.
seu carro não é o seu corpo.
                                 seu carro não é o seu corpo.

(do que eu falava mesmo?)

ah, sim, o buraco de silêncio no bolso.
                                  o silêncio no bolso descalço.
descalço não o bolso, mas quem o carregava.
tirara os sapatos para se sentir mais confortável.

apreciava o silêncio a sua volta
(entre) o fogo e os gritos do
                              acidente que causara.
o cachorro, pelo menos,
                   continuava vivo.
espera, não sei se você entendeu o entre, até coloquei entre parênteses.
é mais ou menos assim:
           
                        fogo       (silêncio)      gritos

o que aconteceu você já deve ter entendido.

as pessoas fugiam do fogo aos berros,
                 mas se sentia estranhamente bem ali
perto do calor increpitante das chamas enferrujadas 
do seu automóvel prestes a explodir

o cão estava ao seu lado, no meio do silêncio

  fogo       (silêcãoncio)      gritos                       sirenes

e lhe fazia agradável companhia.

não mexia o focinho, então
                     de certo não latia
e carregava no
                        rosto?
                                  de cachorro 
uma expressão de espanto ou curiosidade 
que não sabia
                          mas era por não ouvir seu coração
o coração do silêncio.
não, perdão.
o coração no silêncio
                                      e seu próprio.

estendeu-lhe a mão
                            que cheirou com o frio focinho
                       tão pouco aquecido pelo calor da gasolina
e, menos desconfiado
            ou feliz
            ou só grato por sentir alguma qualquer coisa
            pôs-se a abanar o rabo
            no meio do silêncio

fogo (silêcãoabanandooraboncio) sirenes           gritos

homens de uniforme gesticulavam ferozmente para que saísse(m?) dali
os rostos desfigurados pelo desespero em suas bocas

e o cão
            impassível
                                como quem soltara o silêncio
cansado de abanar o rabo e
                                      cheio de vermes
                                      passa a arrastar o cu no asfalto
e, 
    se vendo também abundande em parasitas
quem 
           anulara o som
quem
           evitara o cão
quem
           se encontrava perto demais da urgente explosão
passa a arrastar no asfalto
                                   o rosto
                                  comido 
por dentro
                                               e
                                                                                  por fora 
pelo tempo
         sol
         som 
&      intempéries           
pelos cheiros
           berros
           risos
&        desalento                  

nada que faça tamanha diferença  
no momento em que seu nariz 
é amassado contra o chão acidentado
e sua pele é descascada
como batatas contra o ralador
                                     se batatas fossem carne 
e sua pele é raspada
como unhas contra a lixa
                                  se unhas fossem carne
e sua pele é moída
           como carne contra o moedor
se carne fosse alma

e como se tivessem ensaiado
giram 
                  em       sentidos      opostos
mas em sintonia
                                        o cu e o rosto
arrastados pelas patas
          traseiras
                           e 
                              dianteiras
respectivamente

as mãos coladas ao chão 
               condoídas ou sem escolha
perdem rapidamente a fina camada de pele
revelando músculos e o despontar do branco

espalha pelo asfalto a seiva de seu corpo
e sente o rosto deformado
                     ser reformado
pela pavimentação em contato com as sevandijas que poluem seu sangue
que o cão lambe com gosto
           sentindo fome
           e excitado pelo cheiro fresco
           de vida alimentar 

um uniforme se aproxima, alarmado, aflito
       sacudindo os braços
despertando do transe
os                    restos de vida
os                    descartes
os                    dejetos 
                                     da
                                          existência

chamando atenção às faces 
monstruosas
de quem 
      assistia a cena

ela.
       silenciosa.
                          sangrenta. 
enxerga os próprios olhos
                                no reflexo vermelho em suas mãos
decidida a expurgar-se dos demônios que gestava.

se                e                  em                ao 
     levanta    caminha        direção      fogo

seguida pelo buraco que a pertencia
e o cão que sentia piedade
                            ou ainda tinha o estômago vazio

entregam seus corpos 
                             à fogueira 
                                         em sacrfício

(silêexplosãoncio) sirenes grito gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos 
gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos gritos

noite de chuva

Noite de Chuva

canto gregoriano na mente, Encontrão!
homem sombra de corpo manipulado,
pele de mendigo-cão,
face rugosa,
um olho vazado, outro, buraco com búzios.

especulativa investigação,
hipótese absurda reverbera,
torna-se inabalável,
inquebrantável em meu cérebro angustiado.
racional inquiri – íntima inquisição,
dimensionei minuciosamente nos terríveis segundos a máscara em minhas mãos,
num ímpeto, abracei (o aqueceu)  
beijei num frenesi erótico o rosto de lascas, língua no coração.
entreguei a capa de chuva japonesa - coberto resto do corpo serpente - SOU
                           esta  frésia branca indecente.

eu caçador, pesquisador da alma diabólica, parabólica, tanto côncavo quanto convexo
memória perispírito tridimensional, impossível desfazimento,
narcisotorpedo torpedeia meu santuário interior.Temido espelho.

Tremido Desatino, Socorro Serafim!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Espelho, espelho meu.



Se eu tivesse uma chance, uma só, de capturar sua imagem, não seria na self-retina. Seria no espelho, na lâmina fina (que não fere), o lugar ideal para o cativeiro.
 
Teria todos os dias o encantamento dos índios (aqueles mais primitivos, os que não enxergaram as naus) diante do presente raro, você perpetuado, um Dorian Gray sem pecado, guardado a sete vezes setenta chaves. 
E na planície de vidro onde o ideado é também real, manteria cada movimento seu bem perto para violar e ver (voyeur) em meus olhos os seus, em seus traços os meus.
Fetiche.