terça-feira, 19 de julho de 2016

Por favor garçom, me vê la carte du tendre!

Minha cabeça e ombros, cansados de te carregar, empurram meu dorso para frente e ainda inconsciente, aos poucos me curvo, dobro ao meio. Já tenho as palmas das mãos no chão e as sinto como pés. Flexiono joelhos e cotovelos até a coluna encontrar, agora na horizontal, uma nova relação com a gravidade. Reconheço as minhas presas antepassadas. Cresce meu rabo, que abano sem me preocupar se te seduzo ou não. Este novo jeito de caminhar, de novo sob patas, me desordena. Mas a chance de cair parece menor e o calor da terra fértil mais forte que o frio da cova que um dia cavei. Lembro de quando começamos com esta brincadeira: comer e trepar como animais, misturar comida e cama, de quem mesmo foi a idéia? Desta vez, mais experiente, farejo uma nova trilha, consigo lamber as minhas feridas. Estou no cio e todos parecem perceber. Encontro um ritmo novo dentro do bando. É noite e faz sol dentro da fogueira. Sou menor que o rinoceronte e seus olhos que aprisionam, mas o toco a correr para bem longe. Sempre soube proteger meu território, mas nunca achei que assumir a minha juba fosse fazer com que eu me sentisse tão feminina. Quanto(s) mais de você devorar? E quantas de mim morrer? De petite mort à la carte estou farta, basta! 

Cuide dos seus dentes

Um pedaço de metal inclinado ao meio e duas pontas prontas para capturar o incômodo. Sou eu quem melhor manejo o amuleto no nosso reino. Pinço os pêlos da rainha singela certa de que posso transformá-la num leão, liberar seus poros para trazer à tona seus raios solares. E ela vai reagindo. Respira a penugem branca. A pele se dobrando sobre si mesma como quando bebê. “Cuide dos seus dentes” me diz enquanto lavo a sua dentadura. Seus olhos azuis me carregam no colo ainda criança. Fico a ouvi-la me perguntando se só se lembra das mesmas histórias, ou se são as histórias que se repetem. Seguro firme a palma da sua mão esquerda. Dois tendões levantados ao centro e a linha da vida que só começou de verdade quando ele se foi. Tem muito cálcio no seu coração, diz o médico. Seu manto é feito de conchas, diz o mar. Agora que voltou - viva! - fica mais um pouco vó.

domingo, 10 de julho de 2016

TOMEI NO CÚ E PASSEI BATOM.


*IMAGEM: CAMPANHA PUBLICITÁRIA SHISEIDO
DEIXAREI DE LADO O SAUDOSISMO QUE SÓ PREJUDICA E ATRASA, POIS O PROGRESSO AVANÇA IMPARÁVEL NAS CLINICAS DE CLAREAMENTO DENTÁRIO E NA SALVAÇÃO ESPIRITUAL COM OS PASTORES MATANDO O DIABO A TIROS, CONFESSO: FRACASSEI E COMI POEIRA.
TOMEI NO CÚ, ESQUECI DE VIVER A REALIDADE, SONHEI A VIDA TODA EM NÃO SER DA TERRA.
E O QUE TENHO, SE O CERTO É UMA POSSIBILIDADE, COMO FICA O ERRADO?
DE TÃO PERFEITO, REDONDO E ACABADO QUE SAIU O MUNDO, ACABARAM-SE AS INQUIETAÇÕES, OS CONSERTOS, OS AVIAMENTOS, POIS CREMOS QUE SABEMOS PERFEITAMENTE DE QUE ESTAMOS A FALAR, E NÃO NOS INTERROGAMOS SOBRE AS CAUSAS PROFUNDAS DA FALTA DE AFETO QUE ALI HÁ, OU A INDIFERENÇA, OU O ÓDIO.
SE AS SEMENTES SE ENTERRAM, E ELAS ACABAM POR NASCER, DESCULPE SE O ASSUNTO É O MESMO E SE ENTRE A SAÍDA E O REGRESSO DOU OUTRO MURRO NA CABEÇA: ESTOU A ACARRETAR VÉSPERAS COMO QUEM CARREGA PEDRAS. QUANDO JÁ NÃO PODEMOS COM A CARGA ACABOU-SE A TRANSPORTAÇÃO. O ÚLTIMO DIA É O ÚNICO A QUE NÃO PODERÁ SER CHAMADO DE VÉSPERA.
SE QUERO ENTRISTECER-TE.
SÓ ESTOU A FALAR DE COISAS SÉRIAS: VIVI, OLHEI, PERDI, VI, SENTI E AGORA JÁ NÃO SEI SE VIVI DE TUDO. TALVEZ SERIA MELHOR FINGIR QUE SE VIVE A VIDA ASSISTINDO O REPRISE NA SESSÃO DA TARDE DAS REDES SOCIAIS. SERÁ QUE O BOLINHO DE CHUVA COM CAFÉ SERIA UM BOM ACOMPANHANTE? AS VEZES FOSSE PREFERÍVEL NÃO SABERMOS QUEM SOMOS, NOS TORNANDO UM BARRO SÓ. PODERÍAMOS DORMIR COMO UMA PEDRA DEVERÁ DORMIR, SEM SONHOS, SEM ESTREMECIMENTOS, ATÉ SEM RESPIRAÇÃO, DESCANSANDO SOBRE O MUNDO O PESO TODO DA INFINITA FADIGA.
DORME, CINCO LETRAS, DUAS SILABAS, O FIM DO MUNDO NÃO É PRA JÁ, CORRER JÁ NÃO VAI ADIANTAR.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Eva-poro

en-farto
atro-[pe-(ela)-da]
de-canto 
transp-iro!
Eva-poro 
en-sol-arada
pra chô!-ver
do-ce

sábado, 2 de julho de 2016

CRIANÇA INTERIOR

uma criança
a passos largos
avança caminhos

olhos atentos
coração pulsante
em corpo-animal
que intui cheiros
e trilhas

sempre chega

mãos oferecem
braços aguardam
abraços


Ivan Leite – 29.06.16