quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Você sabe

(resposta à caixa-supresa Eu Sei de Maysa Ribeiro)

Você sabe? Sabe? Enfim.
Eu de repente montinho de areia.
Mas você menor ainda. Mesmo eu sendo essa coisa minúscula que tem medo de você.
Satisfeita?
Sua boca. A expressão amarga, que bajula o chão. A superioridade enviesada da sobrancelha. Que prazer é esse?
Não acabou. Segura o gozo mais um instante. Porque eu também sei.
Descobri que você é menor do que essa caixa. Mais quadrada, mais polida. Seu segredo é só o vazio. O espaço dentro da caixa. Espaço pequeno, mas suficiente para o seu pouco ressecado. Folgado, aliás. Fecha a tampa, rápido, para nada escapar.
Nem vem se fazer de ostra. Eu tanto tempo querendo ser faca, mas cega, sem fio. Lembra? Você, útero, e eu, aborto. Você, silêncio, e eu, verborragia. Mas você só se fez concha porque me sabia sem corte. Fingiu ocultar pulso sob a craca que rasga mãos. A promessa: osso por fora e macia por dentro — mas na verdade osso e osso.
Agora reclama do disfarce, mas como eu entraria de cara limpa?
Olha pra mim. Sem tremer. Sem tremer porque eu sei que o tremor é tentativa de esconder que você não tem o que esconder. Diferente desse espasmo que repuxa sua bochecha esquerda a cada dois segundos. Isso, sim, é real. Seu. Percebe o quanto é ridículo? Pelo menos é seu.
Cuidado que se bate um vento você fica torta pra sempre.
Mas, sabe, eu ia querer te lamber mesmo torta. Arranhar de novo a língua até tirar todo o sal. Depois morder. Mastigar os olhos que veem que os meus não veem. Comer os ouvidos que me escutam dizer que sei que não há quando na verdade não sei ver o que há. Triturar buscas. Se não existe mistério, conheço o mundo. Nosso mundo sem sombra nem luz.
Quem é mais cruel: você, com seu eu-sei de riso oco, ou eu, que não vejo?
Se a gente fechasse os olhos, se encontraria?

dança

dançar
ato que te afasta do cansaço
do fastídio da vida
agarrado
solto
desengonçado
tribal
pura poesia
deixar o corpo brincar

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ângela, a melhor amiga de Ana Maria


Persona: Ângela (melhor amiga de Ana Maria)
Mulher                        Branca
32 anos                        1,88 m                        68 quilos
Inteligente, expansiva, um pouco desengonçada/desastrada
Formada em Letras, especialista em Literatura Inglesa e crítica de teatro.

Ângela nunca dorme antes das 3h, é da madrugada. Ou está em alguma festa, ou na balada ou mergulhada em livros e discos em seu quarta e sala, onde mora sozinha.
Muito alta e magra, sempre chama atenção onde quer que vá e isso a deixa desconfortável. A altura, inclusive, lhe roubou o sonho de ser bailarina, já que era muito desengonçada, sem ritmo, sem a graça e a leveza necessárias para a dança.
A altura é um “defeito” impossível de disfarçar e todas as vezes que chega em algum lugar os olhares se voltam para ela, o que desencadeou uma estranha reação de defesa: crise de espirros.
A chegada de Ângela na festa de Ana Maria não podia ser mais bizarra. Uma mulher alta demais, magra demais, branca demais para os padrões do litoral em pleno verão, toda curvada e segurando o nariz, espirrando sem parar, enquanto a amiga tentava abraçá-la e apresentá-la a outras pessoas.
Ela quis desaparecer quando Ana simplesmente se afastou rindo muito, dizendo que voltaria mais tarde, quando ela conseguisse se controlar. Essa foi a chance de sumir do salão e se refugiar no lavabo.
Se ao menos fosse como a anfitriã, tão linda, perfeita. Amor antigo e secreto que nunca teria coragem de revelar. Odiava ver Ana bajulando a todos e correndo de um lado para outro, sempre querendo agradar. E Ricardo certamente não a merecia.
Já recomposta da crise alérgica da chegada, Ângela abre a porta do lavabo e dá de cara com Ricardo, encostado na parede e segurando duas taças de ponche.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Pensamentos de Julia


Eu não digo pra mamãe que às vezes me sinto sozinha. Disfarço um pouquinho, espero por mamãe, não sei quanto tempo dura. Acho estranha essa palavra, tempo. Os adultos falam dela sempre. O tempo todo. Eu não sei o que é tempo. Só sei que tenho um quarto lindo só pra mim cheio de coelhos. Adoro coelhos. Tenho os mais diversos coelhos de pelúcia, coelhos nas paredes, nas minhas camisolas, meus pijamas, e chinelos fofinhos com imensas orelhas de...coelhos! Fico sempre com meus queridos coelhos, converso com eles, eles me fazem companhia, enquanto mamãe trabalha. Mamãe queria tanto que eu saísse do quarto, mas não me sinto bem lá fora. As pessoas falam coisas que não compreendo, sempre falam mal dos meus cabelos e unhas compridos, o que não compreendo, eu não compreendo por que eles sempre crescem, e crescem, e crescem, e crescem, e crescem. Eu não entendo por que estou maior, minhas pernas ficaram compridas e amigos da minha mãe já disseram que tenho pernas de bambu, achei graça, mas não gosto de ninguém por perto. Apenas meus coelhos e meus livros de palavras misteriosas e figuras lindas. Sim, eu sinto falta de mamãe, queria estar mais perto dela, estar com ela em todos os cantos da casa, mas não consigo. Ouço sempre: Júlia, Júlia, Júlia. E pronto. É mamãe preocupada comigo. Não sei por que se preocupa tanto. Sou tão quietinha. Gosto de ficar aqui no meu quarto, imersa nos meus sonhos, junto com meus coelhos.


Tenho vários coelhos amigos, Godofredo sempre está junto de mim, Sebastião tem bigodes enormes, você precisa ver, Nino é um coelho miúdo e verde, e há uma coelhinha linda cor de rosa chamada... Fernanda. Não sei por que, gostei desse nome, quando eu for mãe, minha filha vai se chamar Fernanda. Quero ser mãe como minha mãe. Cuidar de uma casa linda como essa, ter muitos coelhos no quintal para Fernanda brincar. Quero ser uma mãe cheia de amor, como às vezes me dizem. “Julia é uma menina cheia de amor”. Eu gosto disso, acho bonito. Não entendo quando querem me falar de aniversário, eu não entendo o que é isso. Me dizem: “Mais um ano se passou, Julia!” E eu não sei o que é ano. Sei que sempre fica claro e escuro, que meu corpo espicha, que meu cabelo e minhas unhas crescem, o que deixa mamãe apavorada, e sei que odeio escuro. Por isso mamãe iluminou todo meu quarto, ele nunca fica escuro, e eu durmo bom assim com todos os meus amigos. Godofredo num braço Sebastião, no outro, Nino fica sempre na estante, e Fernanda prefere ficar na caminha que preparei para ela, bem aqui do lado da minha.

O ponche que vai ter sal


(trecho da personagem Ana Maria na produção coletiva A Festa)

O ponche das festas na casa da avó. Vermelho, borbulhante, com frutas náufragas entre flocos de espuma. Doce, doce. Porcaria de vinho barato com refrigerante. Para os adultos. Para as crianças, groselha barata com refrigerante. Mas tinha a poncheira. Para os adultos. De cristal com relevo bico de jaca. Até a concha de cristal. Não tenho a receita do ponche da avó nem preciso porque o importante é a poncheira que herdei com o jogo de copos. Fino algum dia mas hoje as taças pequenas demais ou abertas demais para um vinho decente. Melhor encher de mousse de chocolate. Engraçado que quando criança eu imaginava os cristais desenhados o máximo do chique. Já devia ser démodé para a época — assim como sou démodé por falar démodé —, mas eu admirava aquela fragilidade alinhada em fileiras no bufê de imbuia. Intocável para meus dedos curtos de unhas cortadas até o talo. Dedos expostos como a cara esticada pelo rabo de cavalo. O elástico que sempre se embaraçava no cabelo. Não à toa nunca prendi o cabelo da Júlia. No maternal, eu entregava a menina leoa na escola e ao meio-dia recebia de volta uma gata lambida de gel. Recadinho da professora na agenda: corte as unhas da Júlia, por favor. Eu cortava, mas às vezes me entregava ao prazer de ver minha filha despenteada em um caos disforme de cachos e ondas segurar com garras de bicho o copo de cristal cheio de limonada. Nunca quebra nada, a Júlia. Ao contrário de mim. “Você tem uma imensa capacidade para o desastre, Ana Maria.” A avó dizia e era verdade. Eu já sabia na época. Olhava com cobiça para os copos e para as mãos que os faziam balançar no ar. Pensava que um dia entenderia e adentraria aquele mundo de perfumes que coçavam o nariz, tecidos lustrosos, piadas do meu avô, penteados que deixavam as mulheres ainda mais altas e pés como os da dona Zenaide. Como me perturbavam os pés da dona Zenaide. Sempre sentada, com  sapatos pontudos e decotados expondo a risca entre o dedão e o dedo vizinho. Que aflição a distância longa entre o bico do escarpim, onde eu imaginava que acabavam os dedos, e a risca onde eles começavam.  Outro dia comprei um escarpim por causa da dona Zenaide. Lembrei dela quando experimentei o par na loja e vi a fenda entre os dedos aparecer acima do couro preto. Meio centímetro obsceno de dedo exposto no espelho da loja. Calcei para encontrar o Ricardo, mas ele nem reparou, foi logo tirando tudo daquele jeito estabanado dele. Será que o Ricardo vem?
Nas festas da avó, um bando de médicos sem imaginação, e eu achando que estava em O Grande Gatsby — ainda não tinha lido o livro, só conhecia a capa, da prateleira do quarto da mãe da Íris, e pensava que era sobre um gato de olhos chorosos. Mesmo o meu Carnaval de advogada tem convidados menos sensatos.
Tanta fruta para picar. Eu devia ter pedido para a Filomena deixar tudo cortado e separado em tupperware, agora é tarde, essa hora ela já está em casa com os meninos dela e eu estou aqui, de avental e faca na mão. Depois vou ter que correr para tomar banho e passar maquiagem. Checar a Júlia também. Espero que ela não  apronte hoje. Dia de festa, ela não percebe do que se trata mas sempre se agita. Ainda com esse calor... O pior é esse calor. O suor que escorre entre as coxas e desce em fio até a empapar a sola da havaiana. Parece urina, mas refresca. E o Ricardo que faz questão de me ver fazer xixi depois de transar? Coitada da Íris.
Será que os pedaços estão de bom tamanho? Ah, têm que estar. A poncheira é da avó, mas na casa dela quem cortava tudo eram os empregados. Descascavam e picavam laranja sem deixar fiapo de parte branca e amarga. Era como se a fruta tivesse nascido só suco encapsulado em membranas finas imperceptíveis, sem fibras e muito menos sementes para desafiar os dentes. Um trabalho minucioso mais tarde atirado à mistura de vinho doce, guaraná e sei lá mais o quê. Felizmente perdi a receita. Bom, tudo cortado. Vamos lá. Espumante — seco, claro. As frutas: morango, framboesa, amora, laranja (incluindo a parte branca entre os gomos). Cointreau. Sementes de baunilha. Agora  um tico de açúcar… O que foi isso?
— Julia? Julia? Espera que eu já subo aí.
O açúcar. Misturo bem...
— Julia!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Encontro

por Bárbara Zocal e Bruna Meneguetti

Sei nada dessa menina, não. Deve estar pensando violeta ou lilás. Li nessas canoas de carvalho que ela traz na carola. Se espicham tanto quando franze o nariz, de querer engolir meu mundo.
Tinha certeza que seus olhos eram verdes. Verdes como esmeralda, verdes como um mar calmo num dia de sol, verdes como a grama bem molhada. Agora eu os vejo castanhos e fico em pânico. Como posso ter me enganado tanto? Mal a conheço e já acabo de descobrir que a conheço pior do que imaginava. Mas a gente se engana com as coisas invisíveis e não com as visíveis. A menos que se esteja cego em todos os sentidos...  E eu estava cega todos esses dias quando a vi com seus olhos verdes que não estão mais aí. E o mais curioso é que sempre os achei lindos! Pensava: que lindos olhos verdes aquela moça tem. Fiquei refletindo por muitos minutos como eu fui ver olhos verdes no lugar dos seus. Nesse quesito não costumo me enganar, eles são a janela da alma. E é como se eu visse a sacada de um apartamento onde, na verdade, é uma casa. Igualmente bonitas mas tão distintas.
Seus olhos, estranhos são não. Crendeiros. Vi no espelho, anos atrás. Relumbravam os sóis ondulantes no mar, bebiam horizonte. Mas sofrer de cisma dá nisso, menina. Mar que se entra sem ler, Ipupiara pega mesmo.
Distraída estava na popa, ou na proa, sei bem não, aguava os pés de vida. O insolente me rebocou pro fundo, encharcou minhas canoas d’água salgada. Resisti não, mas sabia que o calado do mar não bastava. Por isso digo, menina, as ondulâncias do verde confundem, impossível ancorar na tormenta, até que se aviste o areal baio.
Pensei que poderia ser uma questão espiritual. Seu âmago carrega olhos verdes, sua aura, seu desejo, sua paz, sua luz? Porque vi olhos verdes? Me diga? Qual é essa camada estranha que nos impede de perceber os outros? Sentir suas dores, seus amores, entender que é gente como a gente não importa se são olhos de esmeralda ou chocolate. Você e esse verde que agora procuro insistentemente, como se estivesse mentindo para mim, e justo agora que estamos frente a frente! Como pode fazer isso comigo para me presentear com esses novos olhos? Não me sinto digna do castanho deles. Cultuei o verde como se ele fosse algo irrefutável. Fiz um altar para ele, o cumprimentei, percebi sua presença antes de você chegar. O verde acenou para mim. Mas agora o castanho me chama à realidade. Seu rosto muda, mas é como se a minha máscara caísse ao perceber que o verde não está aí, que ele não vai voltar. Que o verde que vi é outra coisa… É um procurar e não perceber, esperar e não chegar, abraçar sem tocar. E o filme passa na minha cabeça diversas vezes com aquele verde fugindo de mim toda vez que tento procurar mais a fundo.
Dianta não, menina, todo esse foxtrote. Nada verá além dos olhos donde jazem desventuras. Janela alma minha não sorri mais não. Está maculada, é pó da saudade. A casa, o verde, ficou tudo pra trás.
Seu verde me lembra ausência e ele é a materialização da própria. Seu verde é despedida, seu verde é choro e também saudades, seu verde é amor, seu verde é intocável. Quero conhecer a verdade por trás do verde que nunca existiu. Quero que me conte quem é e porque escolheu mentir sobre o verde. Quero que me diga porque acha que o verde a escolheu. Não me leve tão a sério. Eu não sei nada sobre você, apenas que tinha um verde que a seguia e que, um belo dia, parou. Eu também tinha olhos verdes que me seguiam, sabe? Seu verde é o mesmo daquela que amei. Que aconteceu? Não sei bem, mas me lembram seus olhos. Eram verdes até que simplesmente deixaram de ser. O que eu via, então, era apenas o reflexo de meus olhos. Gosto de pensar que seu verde e o meu estão por aí escondidos, esperando o melhor momento para voltar e dizer que, na verdade, esse tempo todo eles estavam juntos em todos os lugares, com todos os verdes do mundo que andam sumindo por aí. Se quer saber, acho que um dia esse verde vai deixar de ser ausência para se transformar em preenchimento. E vamos celebrar o verde de novo. Eu e você.
O que me diz?...
Seus olhos são mesmo verdes!
Ah, é a luz...
Ah, é a sala e as paredes…
Ah, é que vai chover e aí eles ficam mais cheios de barro…
Engraçado. Há um minuto eu poderia jurar que eram castanhos. Como a gente se engana. Como pode existir tanto verde no seu castanho, tanto castanho no seu verde? Já lhe disseram que seus olhos são lindos? Nunca vi nenhum mudar de cor assim. E se quer saber é ótimo poder te conhecer sem ser obrigada a ter certeza sobre qual a cor de seus olhos.
Sou você que me vê. Canoas minhas, abissais, mera lente da vida. Sigo ao socairo, lhana.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016



Menina dos olhos

– Foi um abraço, obrigada – digo, te deixando livre enquanto isso.
– Não sei o que dizer – você me responde, sorrindo.
– Não precisa. Foram dois minutos?
– Pareceu menos, passou rápido. Foi intenso, não foi?
– Não.
– Não? – você se assusta com minha franqueza. – Quer dizer, foi intenso, mas não foi rápido. Foi um tempo diferente do relógio – explico, tocando na sua mão para buscar cumplicidade.
– Sim, sim...
E fica um silêncio de cinco segundos, demorado como a eternidade. – Bom, a gente se vê. Até quinta.
– Até.
Não te disse nada disso, mas queria ter dito. Queria ter te abraçado mesmo no final. Te olhei e dialoguei com você, profundamente. Disse coisas que têm me incomodado, difíceis, penosas. Você me ouviu. Respondeu até o que não ousei formular como pergunta, mas você intuiu. Somos duas mulheres sensíveis e fortes. Nossos olhos foram nossa boca e ouvido, coração. Me senti plena, rasgada e costurada com cuidado. Obrigada.

encontro


desejo de escapar
antes da chegada
frio no estômago
dor de barriga
respira
olha prá frente
caminha com segurança
traça diálogos
pensa
se beijo ou abraço
os dois talvez
controla ansiedade
vai
que só você
aparece ao encontro

vazio


Mais sozinho que de costume, nesse fim de manhã deslizo o meu olhar pela paisagem, uma televisão ligada sempre na mesma emissora, imagem sem áudio ainda bem, não dá para um bom café com papo furado via Embratel, a preguiça do domingo que se debruça sobre as pessoas, a censura da menina granola sobre a criança que se acaba numa fatia de salame na mesa ao lado, nada na cuca, tão bom, confesso que é difícil ficar assim, geralmente trago umas folhas, uma caneta para alguns versinhos, não tenho disciplina para a escrita, nunca tive, nesse  lugar as ideias pipocam, nem sempre ganham forma mas, dá para matar o tempo, assassino das horas fito o velhinho que sempre aparece para três pães e um litro de leite, sinto um certo efeito de amanhã nele embora, no ontem tenha feito isso quando ela ainda me suportava, um pão para cada e outro que ficava amanhecido, depois virava torrada, ganhava geleia, se cansou da rotina, nada deixou tão pouco bilhete, também depois de um tempo a gente nem quer saber, nem vira página, adquire tudo digital, uma vida instantânea puta Sonrisal, nem sei se tem mais isso, tédio sei que existe, para não me carregar de um total araã, invejo o cara que mora na calçada, vive de uns quadros que pinta ali mesmo, se alimenta do que a lanchonete oferece, aos domingos da padaria onde me encontro, comprei um trabalho dele outro dia, pode ter sido a última vez que tenha conversado de forma mis demorada com alguém, pinta com os dedos, não utiliza pincel, o povo comum passa por ele, nem percebe que ele está no caminho, alguns chutam a tinta que ele deixa na calçada enquanto medita uma face, os seus desenhos são carregados de rostos, sempre oferece uma pinga para seus semelhantes de relento, possui generosidade, tanta gente se cercando de coisas materiais e, esse individuo que nada tem reparte a pura inexistência, de que somos feitos afinal? A fila pela pelo frango assado, a torta de morango que já esteve pela hora do enterro e hoje está quase de graça, esfria o café, espio, desisto disso, pego uma Stella que não é Dalva, não se avista no céu, é amarga, porta sonhos, companheira da tarde de mais um dia, hora, mês, um fone no ouvido, um Miles, mais nada, essa gente não merece meu olhar que busca o vazio.

terça-feira, 16 de agosto de 2016


Tudo o que procuro é um homem à beira de si mesmo.
Tenho um corpo para resgatar meu corpo.
Não sei meu nome, não sei meu passado e presente.
Velo meu corpo numa tarde de sol descrente.
Afago meu rosto. E me vigio sem desespero.
Deixo meu corpo sem qualquer receio
Caminho vagarosamente e não olho para trás.
Não me despeço. E não faço qualquer reza.


Tomo 2

Retorno, pego meu copo no colo e me embalo.
Talvez esteja perto de um ribeirão bem bonito
Não desperto. Estou derramado nas gramas de um jardim desabitado.
Tenho o tronco marcado de guerra e algum sangue escorre pelo meu nariz.
Alguma chuva cai. Algumas folhas são providas de uma esperança seca.
Abro meu olhos e assisto um novo começo.

sábado, 13 de agosto de 2016

Jorgex

Jorge ali se sentindo perdido em meio ao conforto ortopédico de sua cama super gigante, com a cabeça afundada num profundo travesseiro de penas de chauá, e os membros serpenteados entre o gelado ar de seu quarto e a morna sensação de seus cobertores. Jorge olha o teto, branco e escuro, medita até que o relógio lhe diz para acordar, o dia começou.
Calça sua pantufa e vai até o banheiro mijar, às vezes cagar enquanto lê a edição das onze e quarentacinco da Folha de São Paulo do dia anterior, fazer a barba, escovar os dentes, e ficar se olhando no espelho enquanto pensa no que leu.
            Depois de devidamente purificado, vai até seu quarto e coloca uma berma salmão com uma camiseta azul em gola V, pouco propicia para invernos, mas precisamente agradável para qualquer manhã nas ruas paulistanas. Assim ele parte de casa. Vai de chinelas com haste de couro e sola de pneu, e no caminho, quase pisa em um cocô seco de cachorro, quase inteiramente branco com uma pontinha ainda cremosa, que ele não tira de sua imaginação enquanto pensa no que vai comprar para compor seu desjejum. Para o ovo cozido, já tem em sua despensa; manteiga está no fim, precisa; o pão fresco quente crocante; leite não, iogurte nem pensar; café nunca mais, talvez suco, mas não hoje. Água mesmo. Ele precisa se apressar, acordou seisecinco e entra no trabalho às oitoecinco, demora meia hora de caminhada para chegar na firma sem suar, por isso precisa preparar o desjejum até às sete, tomar um banho e ir embora. Jorge vai decidido pelo sol, tentando ignorar a sombra.
            - Bom dia… ele diz; ou:  – Como vai? – Tudo ótimo e você? Essas mesmas falas ele reproduz a várias pessoas em ordens diferentes, às vezes independentemente, ou só dá um sorriso, e assim cumprimenta seus vizinhos com dentes pastosos e caras pálidas de maquiagens relaxadas mas desculpáveis, a semana é longa até sexta-feira, é o que Jorge pensa depois de julgar a aparência deles na fila do pão.
            Compra pão e manteiga e retorna pra casa. No caminho de volta passa pelo pedaço esbranquiçado de merda de cachorro, ou será humana, ele se pergunta. Ao se aproximar do seu portão, vê uma pomba voando para escapar de um carro que rasga a rua a trinta quilômetros por hora, vendo a parte de trás do pássaro planando, ele se lembra de Maria Clara. Abre o portão e quase quebra a chave na fechadura. É um perigo, pensa e lembra que precisa ficar mais atento. Entra em casa.

Ele precisa arrumar a mesa para o desjejum. Pega talheres, um jogo americano e coloca em sua mesa de dezesseis lugares na sala de jantar. Escolhe um assento rapidamente e vai armando os apetrechos em ordens não aleatórias. Pega o pão da sacola e despeja numa cestinha jeitosinha comprada numa feirinha de artesanato. Vai até a cozinha para pegar o pote de manteiga e ver como a água está. Quando volta, o Diabo está sentado em seu lugar.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Cachorro de Rua

Amo cachorro. Amo mesmo. Tenho desde criança, já tive vários. Agora tenho dois viras. O Fred e o Jorge são porte médio. Eles ocupam bastante espaço, mas é bom porque eles não ficam sozinhos quando eu não tô. Aqui na Santa Cecília tem muito cachorro, né? Levo sempre no Minhocães.

A gente toma café junto todo dia. Eu acordo seis da manhã pra preparar a alimentação natural deles. Faço com carne crua, casca de ovo e vegetais. Eles adoram. Ração faz mó mal, né? E as fábricas ainda testam em animais, um horror. Eu tenho uma ONG de proteção ao animal junto com umas amigas, sabe, o Focinho Carente. O Fred e o Jorge têm uma continha no instagram e faço questão deles serem símbolos da adoção responsável.

Eu quase não deixo meus cachorros sozinhos em casa. Mas quando deixo, faço esforço pra fazer carinho na maior quantidade de cachorros de rua possível. Todos precisam de um pouquinho de amor, né? Principalmente os muitos sujos e com fome, com pulgas e vermes. Aqueles olhinhos de carata que pedem um restinho de misericórdia.

Pena que esse tipo de cachorro quase sempre vem junto com outro bicho.

E não, cara, não tenho dinheiro. Nem um pãozinho sobrando. Faz favor de não pegar em mim com essa mão imunda que não quero encostar nos seus trapos fedidos. Sai pra lá que eu não sou obrigada a ajudar ninguém. 


Que horror. Deus me livre.